Por que o Crack? Parte 1 – Qual a droga que mais causa prejuízos?

Você possivelmente já ouviu falar do programa chamado Crack, é possível vencer. Caso não, este é um programa que visa a distribuição de cerca de 4 bilhões de reais em recursos da União para políticas públicas sobre o crack E OUTRAS DROGAS em todo território nacional. Não deixei em caixa alta “e outras drogas” sem querer. Este projeto possui medidas de prevenção, cuidado e autoridade não somente para o crack, mas também para as demais drogas de abuso. Com isso, gostaria de te convidar a refletir um pouco sobre essa ênfase conferida ao crack pelo programa.

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Farei uma série de posts, chamada Por que o Crack? Neles apresentarei alguns dados que merecem reflexão. Não irei entrar em detalhes sobre o que é o crack, pois já o fiz em um texto anterior (Fatos e falácias sobre o crack) e outro texto do Prisma também já discutiu sobre o estigma e usuários de crack (Sobre zumbis e estigma).

De início, faço a pergunta: Qual a droga que mais causa prejuízos aos usuários e à sociedade?

Esta foi a pergunta feita por um pesquisador chamado David Nutt, e para respondê-la ele conduziu dois trabalhos. Estes dois estudos causaram grande impacto entre os pesquisadores e no governo da Inglaterra. Ambos foram publicados na revista Lancet em 2007 e 2010, nos quais buscou-se desenvolver uma graduação dos danos causados por várias drogas.

David Nutt

No primeiro trabalho foram considerados 9 parâmetros de risco dentro de 3 grandes categorias: danos físicos (agudo, crônico e dano intravenoso); dependência (intensidade do prazer, dependência psicológica e dependência física) e danos sociais (intoxicação, outros danos sociais e custos ao sistema de saúde). Vinte substâncias foram avaliadas nestes critérios por dois grupos de experts. Um deles composto por psiquiatras registrados no Royal College of Psychiatrists e especializados em dependência. O segundo,um grupo multidisciplinar também com experiência em alguma das diversas áreas relacionadas à dependência de drogas (química, farmacologia, ciência forense, epidemiologistas, etc.).

As drogas com maior pontuação (em uma escala de 0 a 4) foram heroína, cocaína, barbitúricos, metadona de rua e álcool. Quanto ao crack, este não fora considerado separadamente da cocaína. Entretanto, os autores salientam que ele é considerado mais prejudicial que a cocaína.

Até aí você pode não ter tido nenhum estranhamento, mas este estudo apontou que a classificação dos danos das drogas proposta no Reino Unido (de A à C, sendo A o mais prejudicial e C o menos prejudicial) não se justificava. Após algum tempo e algumas declarações, David Nutt, até então conselheiro chefe do governo Britânico sobre drogas foi convidado a “deixar seu cargo”[1].

Como uma limitação deste estudo foi a ausência de uma ponderação, o que dificulta a comparação entre as drogas, novamente liderado por Nutt, iniciou-se uma categorização mais aprimorada dos danos causados pelas drogas.

Organizou-se então um evento com vários especialistas no qual foram elencados 16 danos comuns das drogas de abuso. Estes foram divididos entre danos para o usuário e para terceiros (veja na figura abaixo). Já em 2010, outro evento organizado pelo Independent Scientific Committee on Drugs (destacado como uma nova organização composta por especialistas sobre drogas e sem interferência governamental), foi feito para categorizar dentre estes critérios 20 drogas de abuso. Neste caso, também foram convidados dois especialistas não pertencentes ao comitê.

Organização dos critérios de avaliação dos danos causados pelas drogas. Adaptado de Drug harms in the UK: a multicriteria decision analysis. Nutt, et al. Lancet 2010; 376: 1558–65

Dessa vez, com pontuações que permitiam melhor comparação entre as drogas, obteve-se uma nova classificação, sendo o álcool considerado a substância que mais causava danos, seguida pela heroína, crack, metanfetamina e cocaína. É interessante notar que o álcool foi classificado como a droga que de longe mais causa prejuízos aos outros (em vermelho na figura abaixo). Já a metanfetamina causa praticamente danos somente a seus usuários (em azul na figura abaixo). No caso do crack, aproximadamente dois terços da pontuação correspondia aos danos ao usuário. De acordo com os autores, os resultados dão suporte aos previamente obtidos no artigo de 2007, mesmo considerando-se as diferenças entre os trabalhos (houve cerca de 70% de correspondência entre os resultados dos dois estudos).

Classificação final das drogas em relação aos seus danos. Fonte: Drug harms in the UK: a multicriteria decision analysis. Nutt, et al. Lancet 2010; 376: 1558–65.

Um ponto que merece destaque é que existem estudos epidemiológicos demonstram que uma maior parcela da população consome álcool enquanto bem menos pessoas usam crack seja qualquer padrão de consumo (na vida, ano ou mês). Consequentemente, a magnitude desses problemas associados aos danos causados irão ser muito maiores para o álcool do que para o crack. Isto não quer dizer, contudo, que o crack não cause problemas. E de fato, a própria classificação aponta o crack como uma droga que traz grandes prejuízos, porém, se comparado ao álcool este problema tende a ser menos expressivo em relação número de pessoas afetadas pelo consumo (usuários e terceiros).

Ao final, a ideia não é dizer que deve-se olhar somente para o álcool ou para outra droga negligenciando o crack. Entretanto, uma ênfase excessiva nele colabora com o esquecimento dos problemas causados por bebidas alcoólicas e outras drogas. Tais drogas lícitas muitas vezes nem são apresentadas e tratadas como um problema de ordem.

Como dito no começo do texto, o programa Crack, é possível vencer contempla também as demais drogas de abuso. Assim, a verba deste programa pode, e deve, ser utilizada também em estratégias de intervenção e ou prevenção às demais drogas que não somente o crack.

Referências:

Nutt, D., King, L. A., Saulsbury, W., & Blakemore, C. (2007). Development of a rational scale to assess the harm of drugs of potential misuse. Lancet, 369(9566), 1047-1053. doi: 10.1016/S0140-6736(07)60464-4

Nutt, D. J., King, L. A., & Phillips, L. D. (2010). Drug harms in the UK: a multicriteria decision analysis. Lancet, 376(9752), 1558-1565.

3 respostas em “Por que o Crack? Parte 1 – Qual a droga que mais causa prejuízos?

  1. Pingback: Epidemia de crack? Quem são os usuários? – Por que o crack – Parte 2 | Prisma Científico

  2. A pior de todas é o álcool. Todos os maconheiros, ‘xeradores’, crackeiros, viciados em geral ‘abrem as portas’ pelo álcool. Porém, sabemos que, devido a tantos ‘benefícios’ econômicos que achamos que ele traz, sequer cogita-se a sua eliminação da humanidade. Continuemos com crimes, drogados, acidentes, assaltos, etc, etc, etc, até a Volta de Jesus !!

    • Olá Gustavo, que bom que leu o texto e comentou! Gostaria de salientar algumas coisas sobre o seu comentário!
      Muitos dos termos que você utilizou (viciado, maconheiro, xeradores) são conceitos que não utilizamos. Eles trazem muitos pré conceitos e estigmatizam os usuários de drogas e isso possui drásticas consequências, por exemplo do ponto de vista da saúde. O texto que cito (Sobre zumbis e estigma) fala sobre isto.
      O álcool traz muitos problemas sociais, e como bem salientou, muitos benefícios econômicos que dificultam a implementação de políticas públicas e regulamentações mais rígidas sobre ele. Entretanto, não visamos extirpar as drogas da sociedade, nem mesmo o álcool. Na história mundial já vivenciamos tentativas como esta e que se provaram ineficazes (sobre o álcool um exemplo é a Lei Seca norte americana na década de 20). O intuito do texto é salientar que bebidas alcoólicas ao contrário do que muitos pensam, causam vários prejuízos. Isto é inegável. Entretanto, assumirmos as drogas como a causa de muitas mazelas da sociedade é um erro, mesmo sabendo da relação existente.
      O Prisma Científico preza antes de tudo por trazer informações científicas em seus textos, independentemente de opinião ou juízos de valor. Por isso não associamos credos, religiões ou qualquer coisa do tipo em nossos textos, especialmente para não enviesar a exposição de informações acadêmico-científicas de nossos textos.

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