Seis predadores e parasitas que poderiam protagonizar o seu próprio filme de terror

Sem título

Alien_facehugger

“Tem Whatsapp?”

Caro leitor do Prisma, você já reparou que quando escrevo sobre Biologia normalmente é para falar de assuntos – para alguns – nojentos? Ainda não, não é? Ok, então continue lendo este post por sua conta e risco.

Hoje falarei de organismos que deixariam qualquer assassino serial orgulhoso por causa de suas estratégias e sangue frio. A poesia da morte que estes seres estabelecem com seus hospedeiros permite com que a sua espécie sobreviva. Seja como predador, seja como parasita. O parasitismo costuma representar uma relação desarmônica, na qual o hospedeiro em algumas vezes acaba por ter não só seus nutrientes como toda a sua cria destruída. E o problema não é do parasita. É óbvio que chamá-los de assassinos e vilões é só uma antropomorfização, os animais apenas lutam pela sobrevivência, não importa a estratégia que usem. Os predadores e parasitas aqui falados são lindos, elegantes, complexos e estão te olhando agora te esperando dormir.

E começamos o Top Prisma com os melhores filmes de terror da natureza.

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bufanda

Protagonista: Niphanda fusca

Se no filme de 1991 a vilã era a babá, aqui é o contrário, a babá é justamente a vítima, que cuida da cria desse parasita que em sua aparência não é tão assustador. A borboleta da espécie Niphanda Fusca entra em formigueiros e lá lança os seus ovos, que possuem um forte cheiro produzido por certos químicos que faz com que as formigas da espécie Camponotus jaconicas cuidem deles como se fossem suas próprias crias.

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“Pode dizer, mãe, eu fui adotado!”

A larva da borboleta recebe os cuidados das formigas – o produto químico que lança de suas glândulas é tão poderoso que atinge a área de recompensa no já diminuto cérebro das formigas, fazendo com que elas ‘se viciem’ no cuidado, formando um ciclo, em que a larva recebe ainda mais cuidado que as outras formigas – até alcançar a maturidade e sair do formigueiro, deixando sua família adotiva para trás. Corações partidos são menos perigosos que corpos partidos, então a Niphanda Fusca fica na sexta colocação.

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Protagonista: Wolbachia

Você lembra da cena em Matrix na qual os humanos são tratados como colheita? É mais ou menos isso que esta bactéria faz. Ela promove uma verdadeira horta de insetos, escolhendo e cultivando os que mais a interessam.

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Tudo isso, claro, até o dia em que um dos insetos for declarado “O Escolhido” e libertar todos os outros das garras dessa bactéria maligna após uma luta demorada com altos custos de efeitos especiais.

Na verdade, a bactéria age mais como “O Bebê de Rosemary” e menos como as máquinas de Matrix, pois age internamente no corpo das moscas Drosophila melanogaster. A bactéria então seleciona as moscas que irão nascer, e, como apenas as fêmeas são interessantes para ela – pois conseguirão aumentar a chance da bactéria se espalhar mais e mais – elas terminam por matar os embriões machos (ou mesmo fazer uma pequena operaçãozinha e transformá-los em embriões de fêmeas).

Elas atuam em moscas, mas isso não impede que um dia ela esteja em seu corpo…

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Protagonista: Acanthaspis petax 

A vespa da espécie Acanthaspis petax é uma assassina que carrega as suas vítimas nas costas. A estratégia assustadora pode ser relacionada com a tendência dos assassinos seriais a manter um troféu de suas vítimas? Claro que sim! Só que aqui ela tem uma funcionalidade além do simples apego patológico. A primeira é que a vespa utiliza o corpo de suas vítimas para se proteger de aranhas saltadoras, mas não é que as aranhas ficam com medo do cheiro da morte e das carcaças que emanam o desespero e lembranças de sonhos destruídos… Ah não, o “escudo de carne” formado garante um tamanho assustador, além de proteger contra ataques. Ninguém no mundo animal gosta de mexer com alguém maior, ainda mais se ele não sente os seus ataques.

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É como se este simpático rapaz acumulasse corpos, ao invés de papel. Ah, e os levasse a todos os lugares.

A segunda utilidade de carregar os cadáveres das suas vítimas consigo é que a vespa consegue uma camuflagem, tendo em vista que formigas se reconhecem a partir do cheiro, este grande totem aos mortos faz com que as semelhantes às suas vítimas o tratem como da própria espécie, deixando inclusive que a vespa possa entrar em formigueiros para promover uma ainda maior matança.

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Protagonista: Ophiocordyceps unilateralis

Perder o controle de sua própria mente é um dos maiores medos da humanidade. Com esse fungo as vítimas abraçam o medo e vivem como zumbis até o resto de sua existência. O fungo em questão faz com que as formigas – sempre elas… – ajam como marionetes, obedecendo todos os seus comandos e esperando calmamente para morrer, enquanto o fungo destrói o seu corpo e libera os seus esporos. A formiga se entrega a um sistema opressor e que preza pelo controle dos comportamentos, terminando por se entregar à morte na ponta das gramas mais altas, onde fica parada, podendo ser comida por algum animal (e assim espalhando o fungo) ou permitindo que o fungo se espalhe pela altura e liberação dos esporos. Não há como vencer. O fungo fascista faz com que 1984 pareça um belo encontro no jardim do Ibirapuera.

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Essa soma entre realidade distópica e terror desmedido causado por algo que normalmente nos lembra apenas que o pão está estragado é assustador, não?

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Protagonista: Ampulex compressa.

Esse inseto, que de tão bonito é também conhecido como “Vespa-Joia” (E que o Atila do Rainha Vermelha me informou que, apesar de tudo indicar, não é vespa de verdade), promove uma lobotomia em suas vítimas, que desta vez são baratas comuns, daquelas que voam em sua direção pensando que são leões e costumam habitar os esgotos de praticamente todos os lugares das nossas cidades. A Vespa-Joia ao se deparar com estas baratas primeiramente utiliza um veneno que as paralisa, após isso, promove uma delicada neurocirurgia: com o seu ferrão, o inseto tateia pelo cérebro da barata até encontrar um local onde poderá liberar toxinas, que dentro de poucos minutos transformará a barata em um zumbi. Ela estará totalmente dócil e poderá ser agora levada pelas antenas pela vespa até o seu ninho, onde injetará seus filhotes no corpo da barata para que eles a devorem por dentro.

Baratinhas, this is your brain on drugs!

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O blog Rainha Vermelha (um blog muito recomendado) explicou de forma detalhada como as Vespas-Joia fazem. A evolução agindo em seu estado mais tenebroso…

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Protagonista: Vandellia cirrhosa.

O pior assassino de todos, leitores e leitoras, é brasileiro. O Vandellia cirrhosa, também conhecido como Candiru ou Peixe-vampiro, vive em rios brasileiros (como o Amazonas) e tem uma predileção por espaços escuros, apertados… Justamente por isso é um dos peixes mais temidos das águas doces. Sim, o Candiru é um parasita que tende a entrar nos corpos humanos, especificamente na uretra ou no anus dos seus hospedeiros. Após isso ele crava as suas nadadeiras nas paredes do local e simplesmente não sai mais.

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“Me ama?”

Ele descobre os locais para se estabelecer ao seguir o cheiro de urina nas águas. Logo, uma placa com maior possibilidade de evitar que banhistas urinem nas piscinas seria “Tem Candiru aí”. O Candiru pode chegar ao tamanho de até 18 centímetros e segue a sua vida se alimentando do sangue do seu hospedeiro.

É possível retirar o Candiru do corpo das pessoas, mas para isso é necessário fazer uma cirurgia. Ou um exorcismo.

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“Você sabe onde eu estive em sua mãe, Padre Karras?”

Referências:

doi:10.1098/rspb.2008.1064
http://dx.doi.org/10.1016/j.mib.2007.05.002

doi:10.1002/arch.20092.

DOI: 10.1111/j.1469-7998.2007.00335.x

 

ERRATA: Após certa discussão, alguns amigos avisaram que a relação da Acanthaspis petax (e, de certa forma, talvez até a da Ampulex compressa) não poderia ser considerada uma relação parasitária. Sendo assim, mudei o título e um pouquinho da ideia do texto para mantê-la, pois ela é muito interessante. Obrigado, pelas correções!

2 respostas em “Seis predadores e parasitas que poderiam protagonizar o seu próprio filme de terror

  1. achava que o mais doido era o fungo que transforma as formigas em zumbis, mas como você incluiu o peixe do capeta na lista fiquei na dúvida. rs uma coisa ainda mais tensa sobre ele é que sua ocorrência é comum em locais onde há pouco ou nenhum acesso a tratamento médico e muitas vítimas morrem de infecção, sem chance de cirurgia.

    a propósito: o peixe amazônico é conhecido como candiru, não “carandiru”, se bem que um nome de prisão pra o bicho faz sentido também…

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