Sobre consciência e inteligência artificial. (Parte 1)

mindMesmo com o avanço dos estudos sobre a consciência, este ainda é um tópico peculiar para as ciências cognitivas. Esse lugar de destaque parece não advir só da complexidade inerente ao assunto, mas também da possibilidade de que, ao descobrir mais sobre ela, se encontre um ponto de destaque para o conhecimento mais aprofundado das nossas propriedades mentais.

Sendo considerada intimamente relacionada com o cérebro, o estudo da consciência busca hoje respostas para o funcionamento desta função altamente ligada à maquinaria neural e a delicada rede que delineia a extensão das possibilidades cognitivas humanas, resultado diligente das forjas da evolução.
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Para a compreensão do pensamento consciente, cientistas da cognição tendem a classificar a cognição em dois sistemas de funcionamento principais: pensamentos controlados e pensamentos automáticos. O pensamento automático seria veloz, não exigiria esforço intencional e atencional, não alcançando assim um patamar perceptual consciente, enquanto que o pensamento controlado seria lento, exigiria um esforço significativo da atenção e da intencionalidade, sendo suscetível à influência consciente do indivíduo. Mas apesar do esforço dos cientistas em estabelecer esta divisão, e mesmo do fato de que todo indivíduo parecer ter uma resposta palatável do que seria a sua própria consciência – ou, ao menos, do que seria “estar consciente” – ainda é tarefa de grande dificuldade engendrar um conceito que permita o estudo sistemático desta esfera da cognição.
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Carl Sagan, famoso divulgador da ciência e escritor de ficção científica (autor da série de televisão Cosmos), e sua esposa AnneDruyan, ambos cientistas, tiveram publicado em 1997 um ensaio chamado “What thin partitions” no livro Mind and Brain Sciences in the 21st Century organizado por Robert Solso, no qual se debruçavam sobre a reflexão acerca da linha tênue que separaria a consciência e o comportamento humano daqueles apresentados pelos animais, questionando a possibilidade da existência da consciência nestes que já foram considerados como autômatos desprovidos de inteligência mais complexa. Sagan e Druyan direcionam seu argumento para uma questão de considerável pertinência, caso a resposta para a existência da consciência nos animais fosse negativa, talvez a própria consciência humana estivesse em xeque, pois considerar a pré-programação genética e instintiva animal como evidência para a não possibilidade de haver uma instância consciente seria negligenciar a influência desta instância nos homens, e assim, ou desconsiderar a existência de um pensamento dito ‘consciente’ ou passar a considerar – sem justificativa evidente – a maquinaria cognitiva humana particularmente diferente da encontrada nos outros animais. Todavia, caso a resposta fosse afirmativa, Sagan e Druyan perceberam que a consciência não mais seria algo especial e exclusivo do ser humano, mas somente um aparato fruto de uma rede sináptica mais desenvolvida neste, porém potencialmente presente em toda a forma de vida que tivesse a sua disposição um sistema nervoso. Por menos humanista que pareça, o argumento de Sagan e Druyan não pretendia minimizar as capacidades humanas subjetivas, como a criatividade, as emoções ou a saudade, mas somente enveredar pela linha de raciocínio capaz de entender que o patamar consciente alcançado pelo homem advém de processos evolutivos delicados, pertencentes a um desenvolvimento qualitativo particular e intenso, porém natural.
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Considerando então não haver razões para acreditar que a consciência seria uma exclusividade humana, neurocientistas têm buscado não só entender seu funcionamento estrutural, como também localizar as peças fundamentais para a sua existência. Com os avanços nos estudos acerca da arquitetura neural que compõe aquilo que chamamos de pensamento, os pesquisadores caminham em direção à tentativa de responder uma das grandes questões do imaginário humano e que, desde pensadores remotos, faz a humanidade elucubrar sobre a sua própria existência e sobre a possibilidade da criação da vida a partir do imaterial: Poderá o homem alcançar o patamar da reprodução do “sopro divino”? Conseguirá criar consciência a partir de um aparato artificial?
Veja no vídeo abaixo uma pequena entrevista que fiz com o Prof. Roberlo Lent da UFRJ sobre o tópico e aguarde o próximo texto, no qual discutirei mais sobre esse assunto (o audio do vídeo está baixo, mas dá para entender).
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Comente o que você achou da discussão e sobre essa pincelada inicial!
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Crick, F. & Koch, C. (1992). The problem of conciousness Scientific American, 267, 152-159
Adaptado de Cogpsi.

3 respostas em “Sobre consciência e inteligência artificial. (Parte 1)

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