Epidemia de crack? Quem são os usuários? – Por que o crack – Parte 2

Vamos à sequência de posts sobre crack aqui no Prisma Científico! Caso você ainda não tenha lido a Parte 1, acesse aqui.

Epidemia de crack? Há algum tempo ouvimos sobre uma alarmante epidemia do crack. Entretanto, no Brasil até pouco tempo atrás existiam poucos estudos que fossem adequados para se responder a esta pergunta (na verdade, do ponto de visto epidemiológico[1] ainda pode-se dizer que não existem trabalhos com metodologia científica adequada e que permitam afirmar se há ou não uma epidemia de crack). Entenda o motivo!

Efeitos-Do-Crack-Características-Gerais-e-Comparativo-Com-Outras-Drogas

O Ministério da Saúde define epidemia como a ocorrência, numa coletividade ou região, de casos da mesma doença (ou surto epidêmico) em número que ultrapassa nitidamente a incidência [2] normalmente esperada, e derivados de uma fonte comum ou que se propagou. O número de casos que caracteriza a presença de uma epidemia varia segundo o agente infeccioso, o tamanho e o tipo da população exposta, sua experiência prévia com a doença ou a ausência de casos anteriores e o tempo e o lugar da ocorrência.

Como você percebeu na parte em destaque no texto, deve-se existir um aumento nítido da incidência. Para conseguir este tipo de informação, uma pesquisa científica deve ser conduzida a longo prazo (estudos longitudinais, por exemplo, nos quais se observa um grupo de pessoas durante um período longo de tempo).

Vamos a um exemplo: Quero saber a incidência (casos novos) de usuários de crack no Brasil. Suponha que entre 10.000 entrevistados contei todos os que usavam crack no ano de 2013. Com isso terei somente o número de pessoas que consomem essa droga naquele ano (chamado de prevalência), não os novos casos, pois não possuo uma base de comparação. Já se eu contar novamente em 2014 quantos usuários de crack existem entre estes 10.000 entrevistados, poderei comparar com o número de 2013 e saber quantos casos novos surgiram, chegando assim então à incidência.

Então, não, não podemos afirmar categoricamente do ponto de vista epidemiológico que haja uma epidemia do crack no Brasil. Isto porque os estudos brasileiros não possuem este caráter metodológico longitudinal. O que podemos dizer é que baseado nos estudos existentes até o momento não há indícios de aumento alarmante no número de casos de uso de crack no Brasil.

Por outro lado, existem no país estudos que nos permitem entender um pouco melhor este fenômeno.

Apesar de também não ser uma medida longitudinal, os dados mais atuais e considerados os melhores para descrever o número de usuários de crack no Brasil e suas características estão apresentados em dois relatórios de 2013 feitos pela FIOCRUZ: Estimativa do número de usuários de crack e/ou similares nas Capitais do País e Perfil dos usuários de crack e/ou similares no Brasil [3].fiocruz2

Eles são considerados os melhores levantamentos por acessarem mais acuradamente o grupo de pessoas que de fato consome o crack. Por exemplo, estudos entre universitários e estudantes do ensino médio e fundamental (que trazem dados sobre a prevalência do uso dessa droga) não contemplam pessoas que não frequenta estas instituições. Contudo, sabemos que muitos usuários de crack não estão de fato em universidades e escolas.

Os resultados do trabalho da FIOCRUZ trazem que existem cerca de 370.000 usuários de crack e/ou similares no país, sendo que quase 80% são homens. Sobre o padrão de consumo, 55% usa todo dia, uns dias mais uns dias menos, e, aproximadamente 30% usa somente de vez em quando.

Aproximadamente 55% possui de 4ª à 8ª série, 20% ensino médio completo ou incompleto e menos de 5% ensino superior. Aqui vale a pena ressaltar que esta informação NÃO confirma o que normalmente se escuta: Crack é coisa de pobre. Não estamos falando de renda ou classe social, mas sim de escolaridade, que não é o único e melhor indicador de renda.

Oito em cada 10 usuários declarou ser não-branco; 40% possui moradia própria ou da família, 20% moradia alugada ou de amigos e 35% mora na rua. Uma das coisas mais interessantes aqui é que ao contrário do que muitos pensam, nem todos usuários de crack são moradores de rua. Na verdade, a maioria não é.

Aproximadamente 77% dos usuários relatou ter algum trabalho legal como fonte de renda e 15% conseguia dinheiro através de atividades ilícitas (roubos, furtos, tráfico, etc.). Quase 80% dos usuários desejavam se tratar, porém a pesquisa relata um baixo acesso a serviços de tratamento. Um dos motivos apontados é que tais serviços não oferecem de maneira integrada cuidados como ajuda para se conseguir emprego; ou para escola/curso (92% dos usuários apontaram estes como aspectos importantes para facilitar o acesso aos serviços de atenção e tratamento). Em resumo, muitos usuários gostariam espontaneamente de se tratar, e, pelo menos em parte, pretendem conseguir emprego ou aprimorar seu grau de escolaridade/especialização.

Espero que essas informações tenham melhorado um pouco sua compreensão sobre o tema e se gostou, compartilhe, reflita, comente, dialogue!

Bibliografia:


[1] Parte da ciência que estuda manifestações na população, normalmente de doenças, estimando quantas pessoas são afetadas por determinada condição.

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