Trair ou não trair? Algumas diferenças entre homens e mulheres.

Mesmo variando na maneira como se pensa e reage à infidelidade, de maneira geral, grande parte das pessoas possuem certo grau de preocupação quanto a isso.

Poucas são as espécies de mamíferos que possuem o comportamento monogâmico (1) (entre 3 a 5%), e os humanos estão neste grupo. Eu sei que você imaginou, será mesmo? De fato há discussão sobre isso ser de fato verdade, tanto que alguns pesquisadores sugerem para os humanos o termo monogamia serial ou social, na qual a monogamia predomina, mas é intercalada por vários episódios de adultérios clandestinos.

Traição Machuca a todos

Traição
Machuca a todos

Na ciência, estudos com simpáticos animaizinhos chamados arganazes forneceram importantes informações sobre este tema. Entre esses animais, aqueles que vivem no prado apresentam comportamento monogâmico (normalmente na natureza quando esses animais perdem um parceiro, eles nunca mais se relacionam com outro, romântico não?). Já arganazes que vivem nas montanhas ou campo apresentam comportamento poligâmico (esse seria como o bonde da putaria).7523368472_1d6f3882d5_z

Diversos estudos permitiram reconhecer algumas substâncias e estruturas envolvidas nesses comportamentos: a ocitocina (e seus receptores) e vasopressina, ambas alterando a liberação de dopamina. Se você quer saber mais sobre a importância da dopamina no amor, veja aqui em outro texto do Prisma.

Como as coisas não poderiam parar por aí, estudos em homens observaram que o uso intranasal de um spray de ocitocina estava associado à maior percepção de sua parceira como mais atraente comparada a outras mulheres e à “facilitação” da fidelidade por homens em relacionamentos monogâmicos, por mantê-los mais distantes de outras mulheres. A partir desses estudos inúmeras pessoas começaram a propagar a ideia de um spray anti-infidelidade, que imagine, fez bastante sucesso…

Agora, quem é mais infiel? Homens ou mulheres? Façam suas apostas!!!

Grande parte dos estudos mais antigos apontaram que homens traem mais que mulheres, entretanto a diferença entre os gêneros tem se tornado cada vez menor, especialmente entre populações mais jovens. Porém, algumas diferenças ainda prevalecem. Mulheres tendem a trair mais quando não estão satisfeitas com seu relacionamento primário, enquanto homens costumam ter mais relações sexuais com sua parceira “secundária”.

Agora, já ouviu falar sobre as hipóteses evolutivas da infidelidade? Nelas a infidelidade é entendida como uma ameaça à reprodução e perpetuação da espécie, um desafio às empreitadas reprodutivas.

Por exemplo, comparadas aos homens, mulheres devem investir mais recursos durante a gravidez, amamentação e cuidados com os filhos. Assim, a infidelidade feminina poderia assumir um papel auxiliando na busca de mais parceiros para ajudar na criação dos filhos. Indo mais além, caso essas mulheres também tenham filhos com esse parceiro “extra”, elas estariam aumentando sua variabilidade genética através de sua prole. Isto tudo favoreceria a sua perpetuação.

De maneira similar, a teoria dos “filhos sexys” sugere que ao se relacionar com homens mais atraentes, as mulheres aumentariam as chances de ter filhos mais atraentes, os quais atrairiam um maior número de mulheres para se relacionar com eles. Consequentemente essas mulheres teriam uma maior vantagem, ampliando as chances de perpetuar seus genes. Minimamente interessante, não? Mas vale a pena lembrar que isso é uma das possíveis teorias.

Canalha traidor

Canalha traidor

Homens e mulheres aparentemente reagem de maneiras diferentes à infidelidade sexual (seu parceiro faz sexo com outra pessoa) e infidelidade emocional (seu parceiro se apaixonou por outra pessoa). Homens se “incomodam” mais com a infidelidade sexual e as mulheres com a emocional. Para explicar essas diferenças, ainda sob uma lógica evolutiva, a infidelidade sexual para os homens seria mais perturbadora por ele não saber se de fato o filho é seu, o que faria ele dispensar energia para a criação de filhos de terceiros. Já para as mulheres, a traição emocional traria maior desconforto por achar que seu parceiro está investindo recursos em direção a outra mulher e filhos.

Enfim, a infidelidade está inegavelmente presente na sociedade e é mais um dos temas de estudo bastante complexo por envolver diversas questões de ordem psicológica, biológica e social. Caso você se interessa ou ficou instigado a ler mais sobre o tema, sugiro o texto Infidelity: when, where, why? que está na bibliografia.

 

 

1 – A definição de Young e Wang para monogamia é: “uma organização social na qual cada membro de um par apresenta uma afiliação e copulação seletiva (mas não exclusiva), bem como a partilha do ninho, ocorrendo tipicamente também a partilha do cuidado dos filhos”.

 

Bibliografia:

Donaldson, Zoe R., and Larry J. Young. “Oxytocin, vasopressin, and the neurogenetics of sociality.” Science 322.5903 (2008): 900-904.

Infidelity: when, where, why.” IN WR Cupach and BH Spitzberg, The Dark Side of Close Relationships II, New York: Routledge, pp 175-196.

Miller, Saul L., and Jon K. Maner. “Sex differences in response to sexual versus emotional infidelity: The moderating role of individual differences.” Personality and Individual Differences 46.3 (2009): 287-291.

Scheele, Dirk, et al. “Oxytocin enhances brain reward system responses in men viewing the face of their female partner.” Proceedings of the National Academy of Sciences 110.50 (2013): 20308-20313.

Scheele, Dirk, et al. “Oxytocin modulates social distance between males and females.” The Journal of Neuroscience 32.46 (2012): 16074-16079.

Sue Carter, C., A. Courtney Devries, and Lowell L. Getz. “Physiological substrates of mammalian monogamy: the prairie vole model.” Neuroscience & Biobehavioral Reviews 19.2 (1995): 303-314.

Tidwell, Natasha D., and Paul W. Eastwick. “Sex Differences in Succumbing to Sexual Temptations A Function of Impulse or Control?.” Personality and Social Psychology Bulletin 39.12 (2013): 1620-1633.

Young, Larry J., and Zuoxin Wang. “The neurobiology of pair bonding.” Nature neuroscience 7.10 (2004): 1048-1054.

2 respostas em “Trair ou não trair? Algumas diferenças entre homens e mulheres.

  1. Não sabia sobre a associação da ocitocina e a fidelidade. Mas seria um bom motivo para os homens participassem de vez do momento do Parto (pelo menos o natural), visto que é um momento com grande liberação de ocitocina pela mulher, né😛

    • Oi Priscila! bem lembrado sobre a liberação da ocitocina durante o parto! Não consegui encontrar nenhum estudo que tenha associado o momento do parto ao aumento de ocitocina nos homens. Para mulheres isso já é bem conhecido como você lembrou! O que encontrei é que tanto para homens quanto mulheres o nível de ocitocina se manteve relativamente estável na semana seguinte ao parto e após seis meses do nascimento do filho (http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0006322310001204#). Mas independente disso, a presença do parceiro durante o parto pode ser um comportamento positivo sem dúvida!😀

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