O bóson da ciência: muita massa em pouco tempo

POST CONVIDADO

                                                                                                     Por Carlos Gustavo Garcia

Existe, no meio científico, uma máxima que por muitas vezes assombra até o mais titular dos professores: “publish or perish” (em tradução livre, “publique ou pereça”). A necessidade sempre urgente de se mostrar um pesquisador ativo, trabalhador, produtivo e envolvido em diversos projetos anda tirando o sono daqueles que vivem no meio acadêmico. Mas isso não acontece só com eles, é notório que esse pensamento já se entranha nas mentes de seus alunos também.

Obviamente, há diversas críticas ao sistema de publicações científicas mundiais e a cienciometria – área que estuda aspectos quantitativos da produção científica – avança a passos ainda moderados nas discussões sobre os novos métodos de publicação e análise dos trabalhos.

Em entrevista de dezembro do ano passado, o físico britânico Peter Higgs, que predisse a existência de uma partícula que concede massa aos corpos, apelidada de bóson de Higgs, deu uma declaração inusitada. O vencedor do prêmio Nobel de Física de 2013 afirmou que ele não seria produtivo o suficiente para o sistema acadêmico atual e, por tal motivo, não seria aceito como professor em uma universidade. Além disso, ainda comentou que é difícil imaginar-se tendo a paz e o silêncio no cenário atual para fazer o que fez na época deste trabalho, em 1964. Quando se aposentou em 1996 da Universidade de Edimburgo, já se sentia desconfortável com a nova cultura acadêmica.

Peter Higgs, físico britânico, ganhou o Nobel por seu trabalho de 1964. Hoje em dia não seria contratado por nenhuma universidade, segundo o próprio

Peter Higgs, físico britânico, ganhou o Nobel por seu trabalho de 1964. Hoje em dia não seria contratado por nenhuma universidade, segundo o próprio.

Evitando dar demasiada importância ao tom levemente saudosista do velhinho bom de Física, temos que concordar com muita coisa. Os tempos mudaram, é verdade; perder a conexão com o mundo, mesmo que por pouco tempo e com muito esforço é uma batalha. No entanto, desde quando esse jeito tão just in time começou a tomar conta da ciência? Imagino inclusive que entrar nessa discussão seja uma coisa repetitiva, chover no molhado com você, leitor. São muitos argumentos: técnicas e tecnologias que facilitam o trabalho, maior distribuição do conhecimento entre tantos outros. Isso é indiscutível e fora de contestação.

Penso que o que deve ser realmente discutido é a necessidade de produção massiva que é exigida para ser considerado alguém de respeito. Inclusive, em nosso país especificamente (não sei como se dá em outros locais do mundo), sabemos bem que os professores precisam ser ao mesmo tempo pesquisadores, professores, contadores, administradores, gestores e muitas outras coisas, como já comentou a neurocientista Suzana Herculano-Houzel. Como já ouvi mais de uma vez no laboratório em que trabalho, a analogia cabível da realidade de um professor é a de um pato, animal que anda, nada e voa, mas que na verdade não consegue fazer nada disso com perfeição.

A necessidade de produção rápida e de peso é nitidamente comparável aos processos de produção em fábricas, em que por vezes se planejam jeitos de realizar coisas no menor tempo possível, com a maior qualidade, gastando o mínimo de material possível e colocando tarefas nas mãos de pessoas especializadas para que o processo todo se dê da forma mais vantajosa possível. No caso de um trabalho científico não há objetivo de comércio do produto diretamente, porém é nítido que a visibilidade pela quantidade de produtos científicos no mercado mexe com os brios de cada um.

Longe de querer tecer comentários como “esse tipo de conduta mancha a dignidade da sacra ciência”, isso só me faz pensar nos rumos fast food que podemos alcançar se isso for conduzido às novas gerações de alunos de iniciação científica e pós-graduação. Agigantar um artigo com resultados de todos os tipos, costurar dados por vezes soltos em outros modelos, exigir menos repetições de experimentos para que uma ideia se comprove; todas são atitudes de desrespeito, sim, à ciência com método, observação e coerência.

Enquanto nosso físico britânico encontra o sossego do Nobel pós-aposentadoria, muitos de nós ainda estamos longe desse patamar. No entanto, enquanto Higgs se preocupa e lamenta uma ciência baseada nas láureas dos meros índices, entramos nessa ciranda já com essa ideia fixa, muitas vezes. Para traduzir a primeira expressão colocada nesse texto: muita massa em pouco tempo.

 

SOBRE O AUTOR:

Carlos Gustavo Garcia é biomédico e mestre em Neurociências pela Universidade Federal Fluminense. Se interessa pelas discussões dos rumos da ciência em todos os apectos possíveis.

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2 respostas em “O bóson da ciência: muita massa em pouco tempo

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