Os Corvos e a sua Guerra dos Tronos

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Corvos são animais que para a mitologia e literatura se encontram em um espaço limítrofe entre o mundo espiritual e o mundo real, das religiões pagãs até “O Corvo” de Allan Poe, eles são vistos em geral como detentores do conhecimento místico da morte e, em algumas culturas,  como seres que carregam consigo os maus presságios pelo seu hábito necrófago e a sua cor negra. No seriado Game of Thrones (inspirado na série de livros “As Crônicas de Gelo e Fogo”) a imagem do corvo surge em alguns momentos com a sua habitual ligação mística (“o corvo de três olhos”) e em outros como o grupo de “soldados” servindo para sempre na solidão da muralha, protegendo o continente, um exército formado pela escória do mundo… E esse cara:

Sem título

Apesar de toda essa carga lírica, na ciência o corvo não é visto com maus olhos, mas sim, definitivamente, sendo conhecido como o mais inteligente dos pássaros. Sendo capazes de aprender tarefas complicadíssimas quando treinados.

Um artigo recente mostrou que além de toda inteligência que os corvos remetem, eles também podem ser um bom exemplo de habilidade política. O artigo buscava entender o comportamento social dos corvos segundo a hipótese do Cérebro Social.  Uma ideia de que cérebros altamente desenvolvidos nos animais são frutos evolutivos de relações sociais complexas. Ou seja, as demandas cognitivas da vida durante a evolução moldaria a evolução da inteligência, permitindo maiores interações sociais.

Um ponto importante dessa hipótese é que a compreensão do comportamento de outros animais e, com isso, a adaptação dos próprios comportamentos em resposta a eles não acontece apenas de forma a reagir ao contato com os outros animais, mas sugere que a partir da relação entre animais, um terceiro possa inferir em qual escala hierárquica ele está e como vai se comportar com os primeiros. Em uma sociedade de primatas, por exemplo, quando há um animal que é dominante e outro que é mais frágil, um terceiro animal precisa saber abstrair como deverá se comportar em relação a eles (obedecer e se impor, respectivamente).

Na vida em sociedade é importante saber quem é quem, e isto exige altas habilidades cognitivas (atenção, memória, percepção etc.) e controle emocional, além da Teoria da Mente (uma capacidade de abstrair estados mentais e intencionais dos outros indivíduos). Ou seja, é preciso ser inteligente, estrategista e possuir um grande conhecimento da hierarquia a fim de trabalhar com ela em seu favor, cedendo alimentos aos mais fortes em troca de proteção e fazendo ameaças aos mais fracos para que estes se submetam. Qualquer semelhança com a política não é mera coincidência.

house of corvos

Estrelando: Corvo Spacey.

Outro ponto importantíssimo é que essa inferência ‘política’ em animais mais desenvolvidos é feita apenas ao se observar a relação entre outros animais, sem necessariamente estar no meio da equação. Em pássaros essa capacidade ainda não havia sido confirmada até o recém-publicado artigo. Curiosamente, apenas os machos responderam bem aos testes feitos pelos experimentadores, ou seja, os machos compreenderam bem melhor a hierarquia em uma outra sociedade de corvos do que as fêmeas, isso pela provável necessidade evolutiva de saber com qual fêmea ele deve ou não se meter (mexer com a mulher do rei pode ser um problema). Sendo assim, a maioria dos corvos de uma gaiola, se fossem colocados em outra, iria conseguir saber direitinho quem obedecer e bajular e quem precisaria servir de degrau para a sua ascensão política. A arte da guerra e da conquista é uma arte natural. E assim a política se mostra uma ferramenta útil também no reino animal para se tornar bem sucedido e, além dela, a capacidade de observar bem os seus adversários. Seja você primata ou corvo, para se dar bem em uma sociedade precisa dominar estes aspectos.

sabe de nada

“Sabe de nada, Jão”.

 

Ref.:

Massen, J., Pašukonis, A., Schmidt, J., & Bugnyar, T. (2014). Ravens notice dominance reversals among conspecifics within and outside their social group. Nature Communications, 5 DOI: 10.1038/ncomms4679

2 respostas em “Os Corvos e a sua Guerra dos Tronos

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