Uma hora a ciência básica esbarra na tua vida

Ciência BásicaEi, você aí! Isso, você mesmo: você sabe o que é ciência básica? Não? Pois deveria saber afinal muitas das mordomias que temos hoje em dia surgiram de conhecimentos produzidos por ela.

Ciência básica é o estudo sistemático de determinado assunto para aumentar o entendimento de aspectos fundamentais de um fenômeno. Para a ciência básica pouco importa a aplicação específica ou o produto que podem vir a ser desenvolvidos. Ciência básica é dirigida pela curiosidade. Por meio desse texto, quero mostrar que muitas mordomias atuais vieram de pesquisas muito interessantes e sem pretensão de desenvolver algum produto valioso. 

Por que isso é importante? Porque o atual cenário mundial de investimento científico está cada vez mais colocando de lado a ciência básica e exigindo “aplicabilidade” ou “translacionalismo” (confesso que até me embrulha o estômago só de pensar algumas pessoas falando sobre isso). Para quem quer se aprofundar leia o comentário e preocupação de Bruce Alberts, Marc W. Kirschnerb, Shirley Tilghmanc, e Harold Varmus na revista PNAS (http://www.pnas.org/content/early/2014/04/09/1404402111.full.pdf). Eu consigo entender que hoje, diferente do passado, fazemos ciência com o dinheiro público. É o governo que direciona o investimento. Exatamente por isso que é de extrema relevância mostrarmos à população a importância da ciência básica. Ela é indispensável para a melhoria da qualidade de vida de todos os seres vivos.

Vamos a alguns exemplos:

Experimento de Faraday1. Se a eletricidade torna a vida mais fácil, agradeça a Michael Faraday. Ele desvendou um importante mistério que mudou muito nossa rotina. Em 1821, Faraday percebeu que quando um fio era aproximado e afastado de um pólo magnético (um imã), o fio passava a ter uma corrente elétrica. Esse cientista foi a primeira pessoa a produzir uma corrente elétrica pelo movimento de um fio atrás de um campo magnético. Os experimentos científicos de Faraday criaram o primeiro gerador elétrico, mas ele próprio não tinha em mente tal produção. Hoje em dia nem nos damos conta ao ascender as luzes de casa que, caso não fosse o senhor Faraday trabalhando com ciência básica e brincando com seus fios e campos magnéticos, nem este post você estaria lendo. Talvez eu escreveria para a “coluna Prisma Científico” de um jornal do Brasil e você estaria apreciando a leitura à luz de velas.

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2. Antes do químico francês Louis Pasteur iniciar os experimentos com bactérias nos anos 60 do século 19, nem o médico da época sabia o que causava doenças. Este pesquisador não só descobriu que muitas doenças são decorrentes de infecções por microorganismos, mas também percebeu que a bactéria poderia ser morta por calor e desinfetantes. Essa ideia levou aos médicos a incluir em sua rotina clínica a esterilização de instrumentos cirúrgicos e a lavagem das mãos. Pois é, lavar as mãos não fazia parte dos procedimento médicos antes do século 19. Assustou? Sim? Então lave as mãos antes da próxima refeição.

Alexander Fleming

3. Agora vem uma fácil, remédios! Tenho certeza que você pensou nos antibióticos. Esses fármacos poderosos matam as bactérias que nosso já conhecido Pasteur descobriu. Em 1928, Alexander Fleming descobriu o primeiro antibiótico, a penicilina. Não pense você que Fleming estava em busca do remédio salvador da humanidade. Não, ele tinha um laboratório bagunçado demais e não era muito cauteloso. Em sua primeira observação, o cientista percebeu que as bactérias de sua colônia experimental tinham sido destruídas exatamente aonde caiu muco de seu nariz depois de um espirro. Urgh!:/ Com isso, o cientista descobriu a proteína anti-bacteriana lisozima. Algum tempo depois, Alexander Fleming também notou que uma colônia de um fungo havia crescido espontaneamente em uma das placas de Petri que continham o tal do Staphylococcus aureus, uma bactéria simbionte do homem. Por ser muito observador, não jogou a placa fora desistindo do experimento. As colônias bacterianas que se encontravam ao redor do fungo (mais tarde identificado como Penicillium notatum) estavam transparentes porque haviam morrido.😦 Ou seja, o fungo soltou alguma coisa que matou as bactérias. Alexander Fleming foi reconhecido pela grande descoberta da Penicilina, mas na época muitos colegas subestimaram o seu trabalho.

4. E por último, mas não menos importante, a enzima que corta DNA: as fantásticas enzimas de restrição. Isso mesmo que você leu. A descoberta de uma enzima produzida por bactérias para se protegerem de infecção viral mudou diretamente a minha e a sua vida. Lá pelos anos 1960, os órgãos fomentadores de ciência decidiram investir dinheiro em pesquisa que objetivavam entender como bactérias poderiam se imunes a uma infecção viral. Nada de humano tinha nessa pesquisa, nada de desenvolvimento de remédios e nada de melhorias da engenharia. Os cientistas estavam curiosos para entender um fenômeno da biologia das bactérias. Muito dinheiro foi investido! Bom, os vírus quando entram em uma célula adicionam seu próprio DNA ao DNA da célula, tomando conta do funcionamento daquele organismo. A bactéria, para evitar que o DNA do vírus se aloje no seu, tem uma enzima que picota o DNA do vírus antes que ele atinja o núcleo celular. Essa descoberta causou uma revolução porque cientistas passaram a ter uma ferramenta para cortar em lugares específicos diferentes moléculas de DNA. Com isso nós conseguimos colocar e retirar genes daqui pra lá de lá pra cá. Por exemplo, alguns cientistas colocaram o gene humano da insulina dentro de bactérias e, como elas se multiplicam rapidamente, os cientistas conseguiram produzir quantidades enormes de insulina humana para os pacientes de diabetes que não causaria tantos efeitos colaterais como o tratamento da época.🙂 Não fica por aí, o conhecimento de como cortar DNA em lugares específicos desenvolveu: drogas para o câncer, tratamentos para derrame, biodiesel, vacinas, melhor produção de leite, medicamentos para HIV etc etc etc.

Enzima de restrição bacteriana

Não quero alongar mais o texto mas nem mesmo o viagra estaria no mercado não fosse a pesquisa básica!

E agora? Te falta alguma dúvida sobre a importância da pesquisa básica? Divulgue esse texto, apoie o investimento financeiro em pesquisa básica e aguarde por um futuro diferente.

“Certa vez Faraday recebeu uma visita da rainha da Inglaterra em seu laboratório. Quando a rainha lá chegou, Faraday logo se pôs a mostrar-lhe todas as suas invenções e descobertas. Ao terminar a demonstração a rainha perguntou:

– Mas para que servem todas essas coisas?

Ao que o sábio físico respondeu:

– E para que serve um bebê?”

3 respostas em “Uma hora a ciência básica esbarra na tua vida

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