Quais fatores predizem o sucesso na carreira científica?

Assim como na maioria das carreiras profissionais, prosperar e crescer no mundo acadêmico não é algo fácil. Para a maioria dos alunos de graduação e pós-graduação envolvidos com a pesquisa científica, ser bem sucedido significa passar em um concurso e tornar-se professor de uma faculdade de qualidade. Estar inserido em um ambiente rico de discussões teóricas e práticas experimentais da ciência é o sonho de muitos jovens aqui no Brasil e no mundo.

No entanto, assim como já discutimos no Prisma (aqui e aqui), o sistema de mensuração da qualidade dos candidatos pelos comitês avaliadores das universidades, a alta competitividade e a maneira como a ciência é feita hoje em dia dificultam o desenvolvimento de um profissional bem estruturado e apto a liderar um grupo de pesquisa. Por conta disso, poucas pessoas conseguem o tão almejado posto de professor/pesquisador principal, e a grande parte que não consegue desiste da carreira após muita luta e sofrimento.

Não seria bom se alguém criasse uma receita de como emplacar um posto de professor em uma faculdade? Bom, alguns pesquisadores chegaram quase lá!

Diga-me seus artigos que direi seu futuro

Um grupo de cientistas da computação publicou um artigo propondo um modelo computacional preditor  da possibilidade de alguém tornar-se ou não um PI (do inglês principal investigator, o líder do grupo de pesquisa), que no Brasil seria o equivalente ao professor de faculdade pública concursado, mais ou menos.

Utilizando o PubMed (um dos principais mecanismos de procura de artigos científicos da área biomédica) os pesquisadores obtiveram o banco de dados das publicações de 25.604 indivíduos, PI’s e não-PI’s, que publicaram pela primeira vez entre 1996 e 2000. Mais de 200 medidas associadas à publicação foram mensuradas a partir deste banco de dados.

Os pesquisadores descobriram que o fato de um cientista tornar-se ou não um PI é altamente predito pelo seu histórico de publicações, mesmo quando apenas os primeiros anos de carreira são levados em consideração. Analisando as medidas mais importantes para a formulação dos modelos, os cientistas criaram um segundo modelo mais refinado que considera apenas 5 medidas, mas que mesmo assim ainda mantém um alto poder de predição.

Como esperado, aqueles cientistas que publicam mais artigos como primeiro autor1 são mais propensos a tornarem-se PI. Além disso, eles apresentam um maior índice h2. Porém, o número total de citações do trabalho3 não prediz tão bem quanto o impacto da revista4 onde ele foi publicado. Isso sugere que a percepção da qualidade da publicação (impacto da revista) tem mais valor que a real qualidade do trabalho (citações). No entanto, isso levanta outra questão: independente da qualidade do estudo, aqueles publicados em revistas de alto impacto tem mais chance de serem visto, e consequentemente, citados. Para resolver essa questão os pesquisadores criaram uma medida baseada na razão entre o número de citações e o impacto da revista (citações / fator de impacto). Esta medida foi a quarta mais importante para a previsão do modelo.

Caso você queira ser um PI, não se desespere! Publicar em revistas de alto impacto não é a única saída. Quando os desenvolvedores deste modelo analisaram aqueles cientistas que se tornaram PI, mas que nunca publicaram em uma revista de alto impacto, eles observaram que estes tinham o dobro de publicações como primeiro autor do que aqueles cientistas que não se tornaram PI. Ou seja, se seu artigo não for publicado na Nature, ele pode ser publicado na PlosOne, Trends in, Frontiers in e mesmo assim você ainda tem chance se de tornar um PI, mas vai ter que suar a camisa e gerar dados!

Por favor, não fique nervoso comigo, mas tenho outra má notícia: colaborar em muitos estudos pode não ser tão bom. Apesar dos cientistas que publicam como primeiro ou segundo autor terem mais chance de se tornarem PI, aquela galera do meio não está segura. A não ser que o trabalho seja publicado em uma revista de alto impacto, se você não for o primeiro ou o segundo autor, isso não surtirá muito efeito nas suas chances de “sucesso”! A situação fica ainda pior se o artigo for daqueles que até o papagaio da vizinha entra na autoria e isso ainda tem um impacto negativo sobre o primeiro autor, pois este recebe menos crédito por seu trabalho.

"Que tal botar minha tia como autora? Ela que me deu a idéia do experimento 3"

“Aquele pós-doc é bem bonitinho. Vamos botar ele de co-autor?”

Uma característica identificada com um alto valor de predição no modelo foi o ranking da universidade onde os cientistas frequentaram. Observou-se que aqueles indivíduos que se tornam PI aumentam o ranking da qualidade das universidades que frequentam nos primeiros cinco anos de carreira. Isto indica que fazer doutorado-sanduíche, pós-doutorado ou colaborações com faculdades de renome (leia mais sobre isso aqui e aqui) aumentam suas chances de liderar um grupo de pesquisa no futuro. No entanto, foi observado que o efeito positivo da universidade ainda persiste mesmo quando o sucesso nas publicações é corrigido. Isto indica que o fator “ranking da universidade” pode estar associado com outras medidas não avaliadas pelo modelo, e talvez aparentemente ignoradas no contexto das publicações científicas. Ou então, que só ter um nome de uma faculdade de elite no seu currículo já é o suficiente.

Outro dado importante, e alvo de muitas discussões não só na ciência, mas também em diversas áreas, é a predominância masculina. Os pesquisadores observaram que, segundo o modelo, ser homem é um preditor positivo para ser tornar um PI, mesmo controlando por variáveis secundárias associadas ou não às publicações. Porém é sempre bom lembrar que as mulheres, apesar dos percalços culturais que enfrentam, estão assumindo as posições de liderança na ciência e que a tendência é que as disparidades diminuam. Além disso, o modelo foi criado a partir de dados entre 1996 e 2000. Pode ser que, caso um modelo similar a este seja criado com dados mais recentes, o efeito de gênero se dissipe.

Pra resumir a história, Palmirinha, fala pra gente qual é a receita para se tornar um líder de um grupo de pesquisa?

"Anota ai, bonitinho!"

“Anota ai, bonitinho!”

– ½ kg de publicações de alto impacto ou 2kgs de publicação de menor impacto (fica a gosto do chef) (atenção na dica da Palmirinha);

– 100g de co-autorias (cuidado para não exagerar, se não azeda);

– 1,5kg de colaborações com instituições de elite;

– Manter no forno a 220oC por 30 minutos;

Voilà! Sua vaga como professor na universidade que você sempre quis está ao alcance das suas mãos.

Caso você queira checar quais são suas probabilidades de se tornar um PI acesse o site criado pelos próprios autores. Ao submeter alguns dados referentes às suas publicações, ele estima quais suas chances de tornar-se um PI. Divirtam-se!

http://www.pipredictor.com/

 

1 São os responsáveis pela maioria dos aspectos envolvidos no estudo em questão

2 http://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%8Dndice_h

3 Número de vezes que um artigo é citado por outros artigos subsequentes

4 Média do número de citações dos trabalhos publicados recentemente nesta revista

 

Referências

Van Djik D et al., 2014 Publication metrics and success on the academic job market Curr Biol

 

 

Uma resposta em “Quais fatores predizem o sucesso na carreira científica?

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