Stigma redigere: O novo feitiço do Harry Potter

harry-potter1Goste ou não, a série de livros da autora inglesa J.K. Rowling, Harry Potter, não é só um sucesso, mas um fenômeno sem precedentes. Com mais de 450 milhões de vendas e traduções para mais de 67 línguas, os livros que contam a história do bruxo mais famoso deixaram sua marca na cultura contemporânea.

Nas entrelinhas da história de Rowling, além da lição de que coragem e amizade são fundamentais na formação do caráter de uma pessoa, uma crítica pungente ao racismo, preconceito e fanatismo é conduzida. No mundo fictício de Harry Potter, alguns bruxos se autodenominam “bruxos de sangue puro”, aqueles nascidos de pai e mãe também bruxos. Tais bruxos consideram-se superiores aos mestiços (pelo menos um pai não é bruxo), seres mágicos que não são de sua raça, e também seres não mágicos, como nós, os “trouxas”. Ao longo da história vemos que se por um lado Voldemort, o bruxo mais terrível de todos os tempos e inimigo de Harry, junto com seus seguidores rejeitam aqueles diferentes, Harry por sua vez convive com eles, nutrindo uma amizade e uma empatia profunda com os mesmos.

Mas o que Harry Potter tem a ver com o Prisma Científico?

Não é de hoje que nós abordamos a temática do preconceito, estigma e rotulação aqui no blog (leia mais aqui, aqui e aqui). Por conta de seu impacto e dano social, estes temas são frutos de debates e questionamentos em vários segmentos da população. Pela experiência, já foi visto que a arma mais poderosa que existe contra o preconceito é a educação e é justamente ai que entram os livros do Harry Potter. Em um estudo publicado recentemente, pesquisadores investigaram a relação entre a leitura dos livros da série e as atitudes dos leitores perante grupos sociais estigmatizados. Se considerarmos que a série de livros Harry Potter abordou, em seu contexto fictício, a discussão de preconceito e estigma, e que, além disso, a franquia teve uma absorção imensa por vários segmentos sociais, vale investigar se realmente há uma melhora na qualidade de relação dos leitores da série com grupos estigmatizados da nossa sociedade.

Rúbeo Hagrid (meio-gigante) e Dobby (elfo-doméstico), dois personagens estigmatizados e Dolores Umbridge uma personagem preconceituosa

O contato estendido

Classicamente, uma medida utilizada para reduzir ou prevenir a estigmatização e preconceito a determinado grupo, é estabelecer um contato direto entre o estigmatizado e estigmatizador, medida conhecida como contato intergrupo. Apesar de eficiente, este método é mais difícil de ser empregado em larga escala. Como alternativa, foram propostas abordagens indiretas deste contato, como por exemplo, o contato estendido. Esta medida parte da hipótese de que saber que pessoas de um grupo estigmatizado são amigas de pessoas não estigmatizadas é suficiente para que observadores desta situação reduzam seu preconceito. Estudos com crianças utilizando o contato estendido apontaram um aumento das atitudes positivas associadas a grupos de refugiados e pessoas com deficiência após leituras de histórias que relatavam esta relação de amizade. Em geral, a abordagem utilizada nesses estudos envolve a leitura de histórias para grupos específicos o que limita a abrangência desta prática. Por conta dessa limitação torna-se ainda mais válido utilizar uma série de livros best-seller para aplicar o contato estendido.

Além disso, devemos considerar outra questão importante: o mundo de Harry Potter, seus personagens e conflitos são fictícios. Será possível que pessoas reais identifiquem-se com tais personagens e aprendam com suas histórias? Sim. Segundo algumas teorias sociais, contanto que haja uma identificação do leitor com a perspectiva e visão do mundo do personagem em questão, as experiências e aprendizados podem ser absorvidos através de um processo chamado de interação simbólica. Assim, no estudo desenvolvido, Harry é tido como o mediador positivo deste processo e Voldemort como mediador negativo.

Os estudos e seus resultados

No artigo são descritos três trabalhos diferentes: o primeiro é uma intervenção experimental com crianças abordando a estigmatização de imigrantes. O segundo e terceiro são estudos transversais sendo os grupos estigmatizados em cada estudo os homossexuais e refugiados, respectivamente. Tais grupos estigmatizados foram selecionados, pois são alvos de preconceito e discriminação na Europa, local onde a pesquisa foi conduzida.  Nos três estudos, os principais componentes da investigação se baseavam no número de livros da série lidos e na identificação das pessoas com Harry (mediador positivo) ou com Voldemort (mediador negativo). Esta última medida foi obtida através da resposta a um questionário com afirmações que as pessoas poderiam se identificar mais ou menos, como: “Eu gostaria de ser como Harry/Voldemort” ou “Geralmente eu penso como seria ser Harry/Voldemort”. Curiosamente, em todos os estudos, foi observado que não havia correlação entre a identificação com Harry e a identificação com Voldemort. Ou seja, identificar-se com Harry não quer dizer identificar-se mais ou menos com Voldemort, as duas medidas são independentes.

No primeiro estudo, uma vez por semana, durante seis semanas, dois grupos de crianças diferentes se reuniam com um pesquisador para ler passagens da série do livro e discuti-las. O grupo experimental leu trechos que envolviam condições de racismo e estigmatização (ex: o personagem Draco chamando a Hermione de “sangue ruim” [nome pejorativo dado ao bruxo mestiço]) e o grupo controle leu trechos considerados neutros (ex: Harry comprando sua primeira varinha). Após essas seis semanas, as atitudes das crianças perante aos imigrantes foram comparadas em relação às mesmas medidas obtidas no início do experimento. Nas crianças do grupo experimental que se identificaram com Harry, foi observada uma melhora considerável de tais atitudes algo que não foi observado no grupo controle.

No segundo estudo foram avaliadas as atitudes de adolescentes do ensino médio em relação aos homossexuais. Os participantes responderam dois questionários: um relacionado à série Harry Potter contendo outras perguntas que envolviam a leitura de livros e horas gastas vendo televisão por dia e um questionário relacionado às atitudes sociais, incluindo o relacionamento delas com homossexuais. Foi observada uma correlação positiva entre o número de livros da série Harry Potter lidos e as atitudes positivas em relação aos homossexuais, mas isso apenas nos indivíduos que se identificaram bastante com Harry.

O terceiro e último estudo, foi similar ao segundo, no entanto a população utilizada foi de universitários e suas atitudes perante refugiados. Além disso, uma medida complementar foi incluída neste estudo: a tomada de perspectiva em relação ao grupo estigmatizado (“Pôr-se no lugar do outro”). Já de cara os pesquisadores viram uma coisa muito interessante. Diferente do primeiro e segundo estudos, neste caso, a identificação com Harry não teve um efeito significativo, mas sim a identificação com Voldemort. Segundo os pesquisadores, isso pode ter ocorrido dado que Harry é uma criança/adolescente durante a série e os voluntários serem adultos, sendo mais fácil se identificar com Voldemort, um adulto. Verificou-se que as pessoas que se leram mais livros da série, e se identificavam menos com Voldemort, tinham maiores níveis de tomada de perspectiva e melhores atitudes perante os refugiados.

Em conjunto, esses três estudos mostram que os leitores da série baseiam suas atitudes aproximando-se das características do personagem positivo ou se afastando do negativo, resultando em menores níveis de atitudes e comportamentos estigmatizantes. No entanto, para que este processo ocorra é necessário que haja uma identificação entre leitor e personagem. Embora os resultados tenham sido animadores, assim como qualquer estudo científico, este trabalho apresenta algumas limitações que devem ser levadas em consideração na análise e extrapolação de seus resultados.

Este trabalho evidenciou ainda mais uma das lições mais sérias do livro: dentro de nós sempre existirá o “bem” e o “mal” juntos. Assim como observado, identificar-se com o personagem mau não é o contrário a identificar-se com o personagem bom, estes são independentes entre si; Ao longo da série, Harry descobre que ele está intimamente relacionado a Voldemort a ponto de serem vistos como apenas um ser – “[…] um dos dois deverá morrer na mão do outro, pois nenhum poderá viver enquanto o outro sobreviver […]”. Se fosse pra levar pra casa apenas uma lição dos livros, acho que eu ficaria com o que disse Alvo Dumbledore, diretor de Hogwarts e mais poderoso bruxo que já viveu:

As diferenças de costumes e língua não são nada se os nossos objetivos forem os mesmos e nossos corações receptivos”.

 

Referências

Vezzali L. et al., (2014) The greatest magic of Harry Potter: reducing prejudice J Appl Soc Psychol

Cohen J., (2001) Defining Identification: A theoretical look at the identification of audiences with media characters Mass Communication and Society

2 respostas em “Stigma redigere: O novo feitiço do Harry Potter

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