AIDS, DNA e uma história mal-contada

Certamente você ouviu sobre o abatimento de um avião que sobrevoava a Ucrânia, no mês passado. Um evento terrível, sem dúvidas, com perdas de inestimáveis vidas humanas. Além do acidente em si, o que também me chamou a atenção foi a enxurrada de manchetes, postagens em redes sociais, comentários na rua sobre os cientistas que estavam à bordo da aeronave. Vários sites noticiaram que havia mais de 100 cientistas/ativistas que se dirigiam à uma Conferência sobre AIDS na Austrália. A partir daí, surgiram algumas “teorias da conspiração”, que apontavam que os cientistas haviam descoberto a cura da AIDS e estavam indo ao evento para mostrá-la… e o avião fora abatido para que esta descoberta não se tornasse pública. Como já foi discutido aqui no blog, é importante sempre verificar as fontes antes de sair por aí divulgando fatos. Apenas seis passageiros foram identificados e confirmados como participantes do evento, como mostrado aqui. Vamos supor que, hipoteticamente, a cura da AIDS estivesse em posse de um destes convidados. A cura da AIDS estaria perdida para sempre!……….será?

Antes que eu responda, me permitam contar um causo científico que me veio à cabeça quando eu li as primeiras matérias sobre a “cura da AIDS”, a história da descoberta da estrutura do DNA!!!

A estrutura do DNA foi descrita pela primeira vez por James Watson e Francis Crick, em 1953. Em primeiro lugar, temos que considerar o contexto que estavam Watson e Crick e sua motivação que os levou a pesquisarem a organização tridimensional do DNA. Já naquela época, sabia-se que o DNA estava, de alguma forma, relacionado com a hereditariedade. No entanto, grande parte dos cientistas da época acreditava que o DNA apresentava apenas um papel importante na forma e estrutura dos cromossomos. Esta ideia era sustentada, por exemplo, pelo vírus do mosaico do tabaco que é composto de 94% de proteínas e 6% de RNA. Logo, se o DNA é o componente responsável pela hereditariedade, como era possível o vírus do mosaico do tabaco se replicar sem ter DNA?

Temos que lembrar também que o contexto histórico em que o DNA foi descrito não era dos melhores: uma europa recém-construída após a Segunda Guerra Mundial; o frequente medo de outra guerra; a corrida armamentista e por conhecimento; muitos cientistas recrutados para a pesquisa bélica. O próprio Crick, físico, desenhava minas magnéticas marítimas na época da segunda guerra. Influenciado por Linus Pauling (aquele da distribuição eletrônica) e por Schrödinger (aquele do gato), Crick foi seduzido pela biologia.

Os jovens Watson e Crick se encontraram em Londres após a guerra e viram que uma técnica, chamada difração de raios-X, formava imagens helicoidais de DNA, que eram passíveis de análise. Só que esta técnica não era o projeto de pesquisa oficial dos dois e eles receberam críticas de seus orientadores (qualquer semelhança com você e seu chefe, pode não ser mera coincidência). Havia também em Londres, uma cientista chamada Rosalind Franklin, que trabalhava com a técnica de difração de raios-X e conseguiu obter análises sobre o DNA com a melhor resolução até então na história.

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Do outro lado do Atlântico, Linus Pauling também tentava desvendar a estrutura do DNA e chegou a formular um modelo com três filamentos de polímeros de nucleotídeos (ao invés do modelo certo, que contem dois filamentos, como representados nas imagens de DNA) e não levava em consideração o encaixe mútuo das bases nitrogenadas (adenina (A), guanina (G), timina (T), e citosina (C)). dna4Estudos da época revelaram que as bases nitrogenadas purinas e pirimidinas sempre estavam na mesma proporção. A base púrica A sempre correspondia à base pirimídica T, a base púrica G sempre se correspondia à base pirimídica C. Mas o trabalho de Linus Pauling causou grande barulho no meio científico e uma “competição” se iniciou, uma corrida para a descoberta da estrutura do DNA!

De maneiras “obscuras” que até hoje levantam especulações (talvez por intermédio de Maurice Wilkins, colega de Crick no King’s College, em Londres ou talvez eles encontraram “acidentalmente” a pasta contendo as imagens um belo dia que havia ninguém no laboratório), as imagens de DNA de ótima qualidade obtida por Rosalind Franklin chegaram até Watson e Crick. Com uma imagem de boa qualidade em mãos e com base no estudo incorreto de Linus Pauling, Watson e Crick constuíram um modelo trimensional da molécula de DNA, levando em conta a estrutura das bases nitrogenadas, que poderia explicar como as informações genéticas eram transmitidas de geração em geração. Esta foi, sem sombra de dúvidas, uma das descobertas mais sensacionais do século 20 e que revolucionou toda a biologia e a medicina! Se você nunca leu o artigo publicado em 1953 por Watson e Crick, dê uma olhada. Eles são muito cuidadosos em fazer afirmativas sobre a estrutura do DNA, com um certo receio da comunidade científica da época.

watson-crick

Voltando para o HIV

Tá, mas e daí? Como isso se encaixa na cura da AIDS?

Hoje, assim como naquela época, mais de um grupo de pesquisa estudava um mesmo tema. No caso, alguns dos envolvidos eram Linus Pauling nos Estados Unidos, Watson e Crick, na Inglaterra, entre outros, como Erwin Chargaff e Jerry Donohue. O conhecimento científico não fica estacionado ou retido em só uma pessoa, ele é dinâmico. Ainda mais hoje, com o advento da internet, o conhecimento e descobertas se tornam quase instantâneo. Quem teria descoberto a estrutura tridimensional do DNA se Watson e Crick não a tivessem descoberto? Quando isto teria acontecido? Como? Crick afirmou que a estrutura do DNA teria sido descoberta em dois ou três anos mais tarde, e um forte candidato seria Pauling. Tudo seria uma sucessão de fatos. Talvez a descoberta não teria se dado de forma dramática, mas ela teria acontecido em breve. Além disso, cientistas são metódicos em sua maioria. Eles sempre fazer um backup ou cópias reservas de algo importante, que podem ser acessados por alguém próximo, digamos, um cientista colaborador.

Se a cura da AIDS hipoteticamente estivesse naquele avião, não se preocupe, ela aparecerá em breve.

Curiosidades: Crick era aluno de doutorado e tinha 35 anos quando descreveu a estrutura do DNA. Watson tinha 23 anos e era pós-doutorando. Linus Pauling ganhou dois prêmios Nobel, um de química e um da paz. Rosalind Franklin trabalhava com radiações e morreu aos 37 anos de câncer. Só recebeu os devidos créditos após sua morte.

Referências:

História da Biologia Molecular – Rudolf Hausmann. 2ed. rev. FUNPEC-Ribeirão Preto, SP.

Molecular structure of nucleic acids; a structure for deoxyribose nucleic acid.           Waton JD, Crick FH. Nature. 1953; 171(4356):737-8

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