A Ciência subjuga os mitos

O Reino da Ciência (The Reign of Science 5), por Karl Konrad Huber

O Reino da Ciência (The Reign of Science 5), por Karl Konrad Huber

O ser humano tem uma necessidade quase que fisiológica de explicar as coisas: explicar de onde veio, para que serve, para onde vai, explicar a natureza e os astros etc. Alguns pensadores acreditam que o ser humano é diferente dos outros animais por ter uma capacidade única de perceber padrões. Tentamos sempre achar uma explicação para esses padrões a fim de entendermos como funciona o mundo ao nosso redor e também como nós mesmos funcionamos.

Uma maneira de explicar os padrões é através de idealizações místicas e isso acontece principalmente quando não temos acessibilidade a instrumentos para testar se as nossas explicações são coerentes para determinado fenômeno. A outra maneira é através da Ciência. A Ciência, diferente das explicações místicas, testa metodicamente suas possíveis explicações dos padrões. As explicações que reproduzem o padrão natural são aceitas, as que não, são descartadas. Portanto, a Ciência cria leis após testar as hipóteses e não se baseia em dogmas imutáveis.

Para entender isso vou relatar resumidamente uma história muito interessante da física astronômica que conta com a participação de alguns nomes bem conhecidos: o idealista Edmond Halley, o furtivo Robert Hooke e o vingativo Isaac Newton.

Cometa HalleyVocê já viu um cometa? Como o cometa Halley aí do lado? Hoje em dia você deve saber que esses cometas passam de vez em quando por perto da Terra e são asteróides que, ao chegar perto do Sol, esquentam fazendo com que alguns gases escapem do seu interior formando a cauda que vemos arrastar no céu. No entanto, se você não soubesse nada a respeito do espaço, como você explicaria a aparição esporádica de um cometa?

Os cometas podem ser vistos da Terra de tempos em tempos, ou seja, existe um tipo de padrão para essas aparições. As civilizações antigas achavam várias maneiras de explicar esse padrão. No entanto, por não possuírem ferramentas de teste na época, quase que por unanimidade, as civilizações diziam que os cometas eram um presságio de tempos ruins e desastres, a ver pelas figuras abaixo.

Mitos sobre cometas

Em qualquer época da história sempre encontramos pessoas rebeldes que não têm medo dos mistérios e até os acham muito interessantes. Pois esta era a postura de Edmond Halley. Curioso desde menino, Edmond sempre teve interesse pelos astros. Se tornou um famoso astrônomo e matemático britânico entre o final do século 17 e início do século 18. Halley mapeou estrelas, campos magnéticos e descreveu correntes de ventos que são até hoje utilizadas para prever o clima.

Robert HookeNessa mesma época vivia Robert Hooke, aquele que observou pela primeira vez cavidades em uma cortiça e nomeou-as células (leia esse outro texto). Além disso, Hooke também contribuiu em outras áreas relacionadas à evolução, ajudou na reconstrução de Londres, foi o responsável pela Lei da Elasticidade e, um ponto interessante, é que ele fez experimentos com a Canabis (a planta da maconha) e descreveu-a como causadora de risos.😀

Comentário a parte: como os cientistas do passado eram versáteis em suas investigações, não é? Hoje parece que somos bem diferentes.

O que reunia os cientistas para trocar ideias era o café (como se as cafeterias fossem os primórdios dos congressos científicos). Com isso, Edmond Halley e Robert Hooke começaram a discutir ideias sobre a movimentação de astros. Já se sabia na época que os astros giravam em torno do sol de maneira elíptica (observações de Kepler, um outro gênio da ciência astronômica). Mas por quê? O que atraía ou impulsionava esses movimentos? Hooke disse que teria as equações para explicar isso mas nunca as entregou a Halley. O problema é que Halley era muito curioso e foi conversar com um outro cientista: Isaac Newton.

Isaac NewtonA história de Newton tem detalhes que renderiam muitos outros textos. Então vamos direto ao ponto. Hooke e Newton não se “bicavam”. Tudo começou em 1672, quando Hooke acusou publicamente Newton de ter roubado suas ideias a respeito do espectro de luz. Newton estava certo, Hooke estava errado.

Depois de algum tempo, época que Isaac Newton se distanciou um pouco da academia por causa das acusações injustas de Hooke, o curioso Edmond Halley procurou Newton para saber sua opinião sobre aquela discussão do café: o movimento dos astros. Por que haviam de girar em torno do Sol? Por que aceleravam quando estavam próximo do Sol e desaceleravam se estavam distantes? Newton já havia feitos os cálculos. Esse padrão observado por tantos cientistas nos movimentos dos astros era explicado pela gravidade. Newton enviou a Halley os primeiros escritos da ciência moderna.

Halley ficou muito ansioso, mas a Sociedade Royal inglesa da época não tinha dinheiro para publicar aquele maravilhoso trabalho (mera coincidência com alguns dos nossos atuais problemas…). Então, Halley usou seu próprio dinheiro para publicar o trabalho de Newton. Halley era um idealista! E ao descrever a lei da gravidade, adivinhem quem tentou criar o boato que Newton teria roubado suas ideias? Sim, pasmem, novamente Robert Hooke! Dessa vez, Halley assumiu a responsabilidade e publicou os manuscritos sabendo que a ideia era de Newton. Dizem que anos mais tarde Newton queimou a imagem de Hooke que ficava na Sociedade Royal de Ciências na Inglaterra, por vingança.

Após as leis de Newton, as explicações místicas sobre o Universo passaram, pouco a pouco, a desaparecer. Todos os padrões do universo poderiam agora ser explicados por leis matemáticas, regidas pela gravidade. Isso é inquestionável. Os mitos não faziam mais sentido. Entendendo a gravidade o homem foi até capaz de escapar dela, com as viagens espaciais muitos anos depois.

Edmond HalleyVoltando ao passado, Halley foi muito curioso e usou as leis de Newton para explicar um padrão que há tempos assustava a sociedade: os cometas. Edmond Halley não descobriu o cometa Halley! O que Halley fez foi estudar grande parte das descrições de aparições de cometas e desenhá-las no céu. Com isso, ele percebeu que os cometas também faziam voltas elípticas e que aceleravam quando estavam perto do Sol e desaceleravam quando estavam longe (assim como os planetas). Com os desenhos, Halley percebeu que existiam padrões específicos para algumas rotas dos cometas e supôs que, rotas com o mesmo padrão deveriam ser de um mesmo cometa que retornava à Terra de tempos em tempos. Com um desses cometas, Halley foi bem específico: ele passaria de 76 em 76 anos. Depois de sua morte, muitos astrônomos estavam preparados para testar a “profecia” de Halley, pois assim faz a Ciência. Teoria testada e aceita, o ano e a rota que Halley descreveu eram exatos. Halley estava certo… Em 1758, passava mais uma vez na Terra o cometa Halley.

A última vez foi em 1986. Se você estiver aqui poderá vê-lo em 2061. A grande diferença é que você não precisa profetizar desastres místicos como nossos antepassados fizeram. Aquele mito para explicar o padrão da passagem de cometas se tornou obsoleto e deu lugar a uma explicação racional e científica deste padrão.

Cometa Halley

É o poder da Ciência!

Os detalhes sobre o movimento dos planetas e cometas podem não parar por aí… Deem uma olhada no vídeo abaixo e “profetizem”!

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Esse post foi inspirado no terceiro capítulo da série de documentários exibidos na TV dos EUA em 2014: “Cosmos: A Space time Odyssey”, estrelada pelo astrofísico Neil deGrasse Tyson. DICA DE AMIGO: Assista!

8 respostas em “A Ciência subjuga os mitos

  1. Matéria interessante mas foi um sofisma cômico no final. Uma matéria falando sobre mitos científicos, que põe um mito nem um pouco cientifico no final em forma de vídeo, como sendo algo verdadeiro. Isso é um Hoax, a pessoas que criou esse vídeo é um DJ sem conhecimentos científicos profundos e uma observação empírica simples desmente essa história de “vortex é vida” que beira o misticismo: “Como vemos a macha da Via Lactea a noite?” Enfim se ainda houverem duvidas essa matéria com certeza esclarecerá: http://www.universoracionalista.org/nao-nosso-sistema-solar-nao-e-um-vortex/

    • Oi Marlon, obrigada pelo comentário… Realmente a primeira vez que vi o vídeo fiquei intrigada, mas depois de pesquisar descobri alguns blogs e comentários falando sobre o vídeo como o texto que colocou aqui. Se mais e mais evidências apontaram para teorias contrárias ao vórtex, então vamos novamente reprocessando o conhecimento e reformulando as hipóteses. Minha ideia realmente era só intrigar e fazer as pessoas pensarem. Que tal vc enviar um texto para a gente explicando quais evidências científicas já desmistificam o tipo de vídeo que postei? Temos uma sessão de convidados!!! Clique na aba colabore!!! Seria muito interessante…

  2. Pingback: Como fazer ciência | Blog do Palhão | Ciência e Engenharia

  3. Infelizmente, conheço pessoas que não têm essa necessidade de explicar as coisas. Entretanto, para mim, perguntar “por que?” é tão essencial quanto respirar.

    Estou começando um blog com temas relacionados a esse. Se tiver um tempinho, faça uma visita em lucaspalhao.wordpress.com

    Abraço!

    • Oi Lucas, vi seu texto (compartilhei no facebook) e fico feliz que tenha gostado do meu texto e do Prisma… Vamos trocar mais figurinhas!!

      Quanto aos questionamentos, eu acredito que só vamos ter mais pessoas realmente questionando o ambiente se melhorarmos a educação em ciência que é dada nas escolas. Não só a matéria em si mas como é feita a educação. Por exemplo, somos muito bons em decorar as fórmulas da velocidade e aceleração mas quantos realmente sacam a relação entre elas? Quantos alunos realmente conseguem prever variáveis que vão interferir com um determinado fenômeno? E quantos conseguiriam propor maneiras de testar suas hipóteses?
      O que vc acha?

      Abraço!

      • Olá, Karina. Obrigado pela sua visita e por compartilhar.

        Concordo com você. Eu mesmo só fui descobrir a ciência no mestrado. Já tinha até ouvido falar em publicações científicas mas não consegui me aproximar da área durante a faculdade.

        E quanto a realmente entender algo, também acho que seja raro no nosso sistema educacional. Atualmente, estou fazendo um curso da Duke University e, desde a primeira aula, exige-se que os alunos não apenas entendam, mas pratiquem os conceitos apresentados (e tenho dificuldade por estar acostumado à nossa forma de educar!). Creio que nosso sistema acaba incentivando mais o decorar que o entender.

        Um dia me deparei com uma história em quadrinhos (em inglês) que traduziu, para mim, a real importância das perguntas. É um pouco longa, mas quando puder, dê uma passadinha no meu post
        http://lucaspalhao.wordpress.com/2014/10/01/como-fazer-ciencia-revisitado/

        Ensinar a questionar: esse sim é um desafio dos grandes. Ainda bem que pessoas como Paulo Freire apareceram para dar uma ajuda nessa questão.

        Abraço!

  4. Perdoe-Me por dizer isso. Mas o modo como os conceitos são apresentados nesse texto não são mto úteis para conceituar o porque a ciência se diferencia de outros métodos de explicar a realidade.
    Nem tão pouco diferencia a ciência do mito (mesmo pq muitos conceitos da ciência se tornam mito à medida q vem sendo substituídos por outros com mais sentido e melhor embasados.

    • Interessante o seu comentário!

      Podemos explicar de diversas formas as diferenças dos métodos utilizados para explicar a realidade. Neste texto tentei salientar uma das diferenças que se aplica bem ao exemplo que descrevo sobre a movimentação dos astros: a ciência testa as possíveis explicações enquanto que outros métodos não testam. Além disso, eu não menciono sobre como a verdade científica também pode vir a ser um mito, mas salientei no início do texto que a ciência não se apega a dogmas imutáveis. Você tem razão, as verdades científicas vão sendo substituídas conforme os cientistas colocam em cheque suas leis. Assim o conhecimento evolui e se aprofunda.

      Mesmo assim, como você conceituaria o porque a ciência se diferencia de outros métodos?

      Obrigada pelo comentário…

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