Você é uma Kardashian?

No dia em que um módulo da sonda Rosetta conseguiu pousar em um cometa, um retumbante e inédito feito para a humanidade, o assunto mais comentado da internet foi um outro tipo de abundante passo para a nossa sociedade: Uma foto de Kim Kardashian West na revista Paper mostrando os seus também retumbantes, embora não tão inéditos, atributos:

ktyson

Você já viu a parte debaixo da imagem em algum outro lugar que eu sei, não precisamos colocá-la aqui.

As subcelebridades são conhecidas por ganhar fama sem ter muita contribuição para a humanidade pelas conquistas artísticas, políticas ou humanitárias, quanto mais pelas descobertas científicas. Já os cientistas são conhecidos por… Na verdade, os cientistas não são muito conhecidos. É comum lermos histórias de muitos cientistas que morreram sem o reconhecimento público.

Embora Kim Kardashian não seja uma grande cientista, apesar de possuir uma mente científica, de acordo com o The Guardian, a sua fama supera a de todos os cientistas ‘estrelas’ juntos. A fama de Kardashian foi conquistada através de sua grande personalidade e a tem levado a lugares do estrelato pouco imagináveis para pesquisadores no mundo todo. Não é o objetivo deste texto a crítica à moça, mas sim a crítica de como apenas estar na mídia pode gerar um alcance popular muito maior para qualquer pessoa e, como consequência, trazer danos para uma área em que se depende de rigor em suas asserções, como é a ciência, se tornando muito prejudicial quando a popularidade pela popularidade é realizada por homens e mulheres da academia. Ok, talvez a comparação com a Sra. Kardashian West não seja muito justa, a fama hollywoodiana e a fama pela ciência atraem por vias diferentes a nossa atenção, mas a análise vai por outra linha de raciocínio: o quão críticos somos das afirmações dos profissionais de áreas científicas que são famosos?

Hoje a melhor forma de entrar em contato com as pessoas parece ser através das mídias sociais: blogs, páginas do facebook, vídeos no youtube, podcasts e contas no twitter (até para se fazer divulgação científica). Tendo em vista que Kim (vamos chama-la de Kim, pois agora já somos quase íntimos da moça) é uma das celebridades mais pesquisadas no Google e também uma das celebridades mais seguidas no Twitter, recentemente um artigo propôs a reflexão do quanto o alcance por base das mídias sociais tem sobreposto o alcance estritamente acadêmico por parte de alguns pesquisadores. Este alcance pode ser calculado como o Índice Kardashian (“Kardashian Index” ou “K-Index”). O cálculo do K-Index é bem simples e foi feito apenas para sugerir a reflexão, utilizando como variáveis as quantidades de citações de um pesquisador e de seguidores em sua conta do twitter (nenhuma das duas sendo variáveis de representatividade de popularidade e cientificidade indiscutíveis, obviamente, leia mais aqui, aqui e aqui).

Apesar de parecer uma brincadeira, o advento do Índice K traz a reflexão de quantos cientistas são fenômenos como as subcelebridades: grandes nomes publicamente reconhecidos da mídia social e que podem acabar alimentando essa fama apenas por isso. Pessoas que possuem blogs, livros e contas no twitter famosas, mas podem não ser grandes contribuintes das suas áreas de pesquisa, sendo vistas pelo grande público como líderes e grandes nomes da área apenas por serem “estrelas”, ou até pessoas que são muito citadas e são realmente importantes em suas áreas, mas a popularidade mesmo assim acaba sendo desproporcional ao trabalho realizado. A fórmula para o cálculo do índice K é:

kindex

Sendo F(a) a quantidade de seguidores no twitter e F(c) a quantidade de citações de seus trabalhos.

O autor do artigo propõe que para ser um Kardashian da ciência os indivíduos teriam um resultado acima de 5 no K-index. Seguem os três maiores “Kardashians científicos”:

top3

Surpreso? Eu não. Para ver a lista completa clique aqui.

A proposta é refletir sobre o quanto esse alcance por popularidade pode direcionar a compreensão da sociedade de que tudo que os Kardashians científicos falam (ou tuítam) é ideia indiscutível em seus campos de pesquisa. Um tuíte de Kim Kardashian sobre qualquer coisa provavelmente vai ser mais reproduzido e favoritado do que a quantidade de visitas aos textos do Prisma somados em meses (é sério…), veja por exemplo a quantidade de retuítes (compartilhamentos) e favoritadas (como o ‘curtir’ do Facebook) que a foto dela e o seu esposo receberam:

kimwest

Um ponto importante é que a visão dela sobre ciência não será muito considerada e talvez até vire piada, mas o mesmo aconteceria com um tuíte de um dos Kardashians da ciência? Por exemplo, perceba a repercussão de tuítes aleatórios e não científicos do Neil deGrasse Tyson, uma piadinha, uma filosofada à la mural de Facebook e quando ele mostrou que não entendeu uma cena específica de Interestelar e acha que é realmente um mistério [cortado do post por conter SPOILER do tamanho do universo, veja no perfil do Neil]:

tyson

tyson2 “Os maiores exemplos de controle humano sobre a Evolução são encontrados na Agricultura e no #TheDogShow”; “Nossa imagem de aliens do mal com certeza vem do medo de que eles nos tratem como nós nos tratamos” (sim, a estrelinha amarela significa que eu também favoritei essa Claricelispectada).

Apesar de tudo, o Neil ainda é um grande cientista e o que escreve e fala em seu programa e suas apresentações mostram que a sua popularidade não causará danos para a divulgação científica em geral. E quando isso não pode ser dito da pessoa? Por exemplo:

lobo

Eu tentei fazer o K-Index da “psicóloga” cristã e corri um risco enorme de iniciar o fim do mundo ao dividir por zero.

Marisa Lobo possui 65.500 seguidores no twitter e às vezes tenta falar de sexualidade, psicologia, biologia, genética, política e afins. Marisa Lobo, que teve o seu Registro no Conselho de Psicologia cassado por promover a “cura homossexual”, que acredita que a psicologia não é ciência e que acredita poder falar corretamente sobre evolução e genética. Ou seja, enquanto alguns Kardashians podem não causar danos e em verdade, podem até ser bem interessantes para aumentar o conhecimento científico das pessoas, outros podem ser deletérios para o conhecimento científico a partir da popularidade dos seus comentários errados.

E você, reflita, é um Kardashian da ciência? Se for, você tem ao menos feito o seu papel de tentar divulgar a ciência de forma honesta e correta?

Apesar de não ter muitos seguidores, baseado em minha conta do twitter, descobri que também sou uma Kim Kardashian da ciência (positivamente, espero!)… Já correndo para voltar a publicar mais.

Referência: http://genomebiology.com/2014/15/7/424

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