Levy Fidelix, Eduardo Jorge e o Ebola

Nos últimos meses presenciamos uma corrida eleitoral ímpar, marcada por acusações levianas nos debates à troca de elogios regionais no Facebook que ainda repercutem. Para um bom observador foi fácil identificar a polaridade que dividiu o Brasil: esquerda e direita; PT e PSDB; coxinha e petralha; bolacha e biscoito. Todos defendendo com unhas, dentes e reportagens da Veja suas opiniões. Porém agora quero lembrar a você, leitor, dois personagens que participaram deste pandemônio, mas que não tiveram uma expressão de votos significativa nas eleições: Levy Fidelix e Eduardo Jorge.

Imaginemos uma escala que vai do conservadorismo ao liberalismo. No lado conservador encontramos Levy: “fisiologista”, defensor dos valores da família brasileira, dos bons costumes e da religiosidade. Do lado liberal, encontramos Eduardo: ambientalista, defensor da legalização das drogas e fanfarrão do Twitter.levy-eduardo-jorge

Agora uma pergunta: se o tão temido Ebola chegasse ao Brasil, qual dos dois ex-candidatos à presidência teria mais chances de escapar da contaminação?

A psicologia evolucionista

Se fosse pra eleger o processo biológico mais incrível de todos, eu diria sem pensar que é a seleção natural. O que mais me chama atenção nesse processo é como as pressões seletivas favorecem ou não a reprodução e perpetuação das espécies. Podemos até observar a influência da pressão ambiental em capacidades mentais superiores. Dessa junção nasceu o campo da psicologia evolucionista, que visa estudar como a maneira que o ser humano se comporta, pensa e age – como indivíduo e/ou em grupo – foi moldada ao longo do tempo em função do seu ambiente.681246_Ampliada

Em seu livro, Darwin vai às compras: Sexo, evolução e consumo, Geoffrey Miller aborda uma série de experimentos e teorias propostos pela psicologia evolucionista sobre o comportamento de consumo atual. Um dos principais alicerces de seus argumentos é baseado nas Cinco Grandes características da personalidade: Abertura, Conscienciosidade, Afabilidade, Estabilidade e Extroversão. Segundo Miller, essas Grandes Características “[…] mapeiam as principais diferenças individuais nas disposições do comportamento humano de forma clara e eficiente […]”.

Vamos focar em apenas uma delas agora: a Abertura. Esta característica responde pela disposição das pessoas perante experiências novas e diferentes. Se uma pessoa aceita facilmente mudanças, está disposta a experimentar um restaurante novo ou visitar um país desconhecido, pode-se dizer que ela tem um nível de Abertura alto. Por outro lado, se prefere manter o status quo, respeita as tradições vigentes e prefere a previsibilidade ao risco, é possível afirmar que esta pessoa apresenta uma baixa Abertura. Se testes psicológicos para avaliar as Cinco Grandes características dos candidatos à presidência da república fossem feitos, eu esperaria observar um alto escore de Abertura para Eduardo Jorge e um baixo escore para Levy Fidelix.

Parasitas estressantes

Dentro do campo da psicologia evolucionista existe uma teoria chamada de modelo do estresse-parasitário. Este modelo propõe que doenças parasitárias foram responsáveis por moldar alguns aspectos psicológicos humanos, principalmente àqueles associados à Abertura. Considerando que nossos ancestrais não usufruíam da medicina que temos hoje, há milhares de anos atrás uma infecção parasitária era coisa seríssima! Ser infectado significava uma grande chance de desenvolver morbidades, morrer ou pior, perder a capacidade reprodutiva e não deixar herdeiros.

Para se proteger dessas ameaças, nosso organismo desenvolveu barreiras e proteções para combater tais parasitas como, por exemplo, a mais refinada defesa biológica: o sistema imune. No entanto, o sistema imune por si só não dá conta de todo o recado. Uma de suas características é a alta eficiência de combate apenas contra patógenos que já encontrou antes. Ou seja, os anticorpos gerados para combater o vírus da gripe típico da região onde você mora não são muito úteis contra vírus da gripe de outras regiões, quiçá outras espécies virais ou até mesmo bactérias e protozoários. Por isso, há muitos anos atrás, entrar em contato com um indivíduo de uma região diferente da sua era um comportamento muito arriscado. Se por um lado este indivíduo pudesse ser um potencial candidato reprodutor ou algum comerciante (e talvez por isso fosse uma boa ideia recebê-lo no seu convívio), por outro lado este estranho poderia trazer consigo um patógeno diferente dos tipos que seu sistema imune estava apto a combater. Qual lado pesa mais na balança: ser aberto ou fechado a um indivíduo de fora do seu convívio social?

Malditos vizinhos!

Malditos vizinhos!

O modelo do estresse-parasitário propõe que indivíduos residentes de regiões com uma alta prevalência parasitária (risco de se infectar maior) se beneficiavam mais em apresentar atitudes fechadas perante estrangeiros. Contrariamente, aquelas pessoas que residiam em áreas com menor índice de prevalência parasitária (risco de se infectar menor) apresentavam maior abertura, pois não se preocupavam tanto com possíveis infecções. Ou seja, quanto maior a chance de eu me infectar, menos aberto eu serei. Sabendo disso, será que já podemos responder qual ex-candidato à presidência sobreviveria ao Ebola?

A influência do estresse-parasitário pode ser observada em alguns comportamentos individuais, como por exemplo, o comportamento sexual. Pesquisas recentes demonstraram que em países com alta prevalência de doenças infecciosas há uma maior tendência às restrições sexuais, sendo mais observada em mulheres do que homens, algo esperado já que estas são mais susceptíveis às DSTs. Além de moldar o comportamento individual, o estresse-parasitário pode também influenciar valores culturais. Um estudo verificou que a dispersão geográfica (medida pela área que o indivíduo mora e viaja) em sociedades tradicionais está negativamente correlacionada com a prevalência parasitária da região onde elas se encontram – quanto maior a chance de se infectar, mais perto da sua casa você fica.

Você acha que a taxa de dispersão das mulheres de sociedades islâmicas é alta ou baixa?

Você acha que a taxa de dispersão das mulheres de sociedades islâmicas é alta ou baixa?

Sob o ponto de vista do modelo do estresse parasitário, podemos refletir sobre a assincronia entre o processo de seleção natural e a sociedade humana. Se adotarmos uma abordagem totalmente racional, por conta dos avanços na prevenção e tratamento da medicina moderna, não faz muito sentido apresentar atitudes de baixa Abertura perante estrangeiros. No entanto, o que observamos é que ainda hoje, apenas ficar sabendo de uma doença ou ler sobre seus sintomas pode aumentar temporariamente atitudes fechadas e conservadoras. Neste sentido, vale ressaltar o papel da mídia sensacionalista que fomenta uma percepção social exagerada de muitas doenças, incluindo a Ebola, instaurando o medo e a preocupação. Este pensamento xenofóbico, apesar de justificável há milhares de anos atrás, não faz tanto sentido hoje em dia. Atualmente contamos com ferramentas que podem muito bem controlar um possível surto da Ebola no Brasil como programas de prevenção e educação amplos, diagnósticos rápidos e precisos além de uma infraestrutura e profissionais aptos a lidar com esta demanda. Como exemplo, podemos pegar a experiência da Nigéria, o país mais populoso da África, onde através de medidas governamentais estruturadas e focadas, 100% dos casos de Ebola foram detectados e tratados.

Voltando a pergunta feita no começo deste post, agora sabendo sobre o estresse parasitário bem como a assincronia entre seleção natural e avanços técnicos na medicina, quem você acha sobreviveria caso o Ebola chegasse ao Brasil: o liberal Eduardo Jorge ou o conservador Levy Fidelix? Resposta: Os dois! Graças à medicina moderna, ambos os candidatos têm grandes chances de passar ilesos pelo improvável surto de Ebola no Brasil e quem sabe voltar à corrida presidencial de 2018.

 

Referências

Thornhill, R. et al. (2010) Zoonotic and Non-Zoonotic Diseases in Relation to Human Personality and Societal Values: Support for the Parasite-Stress Model

Faulkner J. et al. (2004) Evolved Disease-Avoidance Mechanisms and Contemporany Xenophobic Attitudes

Miller, G. (2012) Darwin vai às compras: Sexo, Evolução e Consumo, Editora Best Seller

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