A rata Zana

Há um bom tempo atrás, durante minha iniciação científica, vivi um momento um tanto inusitado. Enquanto eu terminava de arrumar o material que acabara de usar em um experimento, um professor que fazia parte do mesmo laboratório que o meu começou a receber alguns alunos para discutir a nota da prova final deles. Eis que uma de suas alunas, ao caminhar para fora da sala após uma intensa negociação de 0,3 ponto deparou-se com uma caixa-moradia onde estavam alguns camundongos. Como prática rotineira laboratorial, cada caixa deve ter uma etiqueta onde informações importantes são escritas, como por exemplo, o nome do experimentador responsável por aqueles animais. Ao ler o nome “João Victor” na etiqueta, a garota olhou para mim e para o professor e disse com um sorriso no rosto: “Que bonitinho! Eles têm nomes!”. Inevitavelmente, após a aluna sair da sala, eu e o professor não conseguimos evitar o riso e a incredulidade: como alguém acha que nós damos nome aos camundongos?

Durante toda minha IC e meu mestrado, com excessão de alguns apelidos e adjetivos, nunca batizei meus camundongos. Seus “nomes” eram meramente uma referência à caixa que habitavam e a localização da uma identificação em seus corpos, por exemplo: 1R (caixa 1, identificação no rabo) ou 5PD (caixa 5, pata direita). Contudo, existem laboratórios de pesquisa que batizam seus animais, e as explicações para os nomes são diversas: o macaco Rhesus que roubava coisas dos outros foi batizado de Ivan, em referência ao Ivan, o Terrível; um casal de camundongos foi certa vez chamado de Brad e Angelina; para aqueles que já eram um pouco crescidinhos no ano de 1997, o nome Dolly não soa estranho: este foi o nome dado uma ovelha totalmente clonada a partir de células adultas de uma ovelha (Fun fact: Anos depois a Globo fez uma novela sobre essa história, quem interpretou a Dolly foi o ator Murilo Benício).

Na grande maioria das vezes, os modelos animais que ganham nomes ou apelidos são aqueles animais filogeneticamente ou culturalmente mais próximos aos humanos, como macacos ou cachorros. Talvez a idéia de nomear estes animais derive da natural empatia que seres humanos têm com certos organismos – até hoje nunca ouvi falar de um laboratório que deu nomes para suas moscas. Como já falamos algumas vezes aqui no Prisma (aqui aqui) a ética do uso de animais em pesquisas biomédicas é um assunto recheado de discussões, e infelizmente, polêmicas. O debate sobre “dar ou não nomes aos animais” entra diretamente no meio dessa história justamente por ser passível de problematizações sob a perspectiva de dois pilares fundamentais da ética em pesquisa animal: preservação do bem-estar animal e garantia de qualidade da pesquisa feita.

Dar nomes aos animais é uma maneira de torná-los indivíduos perante nossos olhos. Esse fato tem dois desdobramentos interessantes. O primeiro deles diz respeito a como uma identificação promovida por um nome pode estreitar a relação entre o bicho de jaleco branco que observa e o bicho que é observado. De acordo com a psicologia social, para nós humanos, o nome de alguma coisa ou a associação de um nome à algo pode mudar a maneira como enxergamos tal objeto. Pessoas tendem a achar que o sanduíche chamado de “Sanduíche de presunto e queijo derretido na chapa matador da fome” é muito mais apetitoso que seu irmão gêmeo “Misto quente”. Um poema acompanhado pelo nome de um poeta parece soar muito mais poético do que se estivesse sem tal autoria. Em outras situações, a ausência de um nome pode gerar um efeito negativo em quem ouve e/ou quem fala: chamar prisioneiros por números de identificação e não por seus nomes é uma prática desumanizante empregada em algumas penitenciárias. Médicos que se referem a seus pacientes por suas doenças (ex: o Sr. Diabetes, a garotinha Sarampo) são menos empáticos e menos sensíveis à dor dos mesmos. Sendo assim, podemos presumir que um pesquisador que conhece cada animal por seu respectivo nome pode estar muito mais atento aos mesmos e se preocupar mais com o bem-estar deles.

animal-welfareA atenção aumentada de um experimentador nos leva ao segundo desdobramento desta história: um pesquisador atento aos seus animais está mais propenso a notar variações fisiológicas e/ou comportamentais relevantes que passariam despercebidas por outro pesquisador menos vigilante. Um olhar meticuloso acompanhado por uma indagação e uma coçada no queixo muitas vezes é o ponto de partida para hipóteses interessantes. Se Alexander Fleming não tivesse um olhar aguçado ele teria perdido apenas mais uma cultura de bactérias para fungos, quando, na verdade, estaria jogando fora a descoberta da penicilina (você não achou que a serendipidade era apenas uma questão de sorte, né?).

Porém, quem olha demais pode achar pelo em casca de ovo. Uma das críticas feitas aos pesquisadores que batizam seus animais é de estarem se sujeitando a um processo chamado de antropomorfização (atribuir características humanas à coisas não humanas). Apesar de ter um apelo emocional forte, e ser muito utilizado para arrancar suspiros de uma audiência, a antropomorfização pode fazer com que cientistas enviesem suas observações. Imagine a seguinte situação: dois macacos chamados Einstein e Bam-bam podem realizar um mesmo movimento aleatório e conseguir acionar uma alavanca que libera comida. Um cientista deste laboratório pode achar que Einstein fez isso porque viu o pesquisador manipulando a barra e assim entendeu o que era pra fazer, já Bam-bam acionou a barra sem querer e teve sorte. Dessa maneira, animais que possivelmente poderiam ser iguais serão interpretados como diferentes. Assim, os resultados obtidos com esta pesquisa podem estar sendo construídos em cima de premissas falsas (um macaco é mais inteligente que o outro quando, na verdade, não é).

Atribuir a inteligência de dois homens diferentes aos macacos apenas por conta de seus nomes é justamente um exemplo de como a antropomorfização pode enviesar experimentos sérios. O macaco Einstein tem que ser mais inteligente que o Bam-bam só pelo peso do nome que carrega? Nossa tendência diria que sim apesar da realidade ser diferente. Outros exemplos seriam uma rata chamada Xuxa ser interpretada como mais atenta a seus filhotes ou assumir que o sagui Zé Pequeno é o macho alfa do bando.

Você poderia me perguntar: “E ai, qual é o certo: dar nome aos animais ou não?”. Dadas razões pelas quais cada lado defende seu ponto de vista (a favor dos nomes: melhores cuidados e mais atenção à possíveis detalhes; contra os nomes: evitar o viés da antropomorfização) fica difícil eleger um lado vencedor, pois ambos são sensatos. Muitas vezes, e principalmente em discussões que envolvem a moral ou a ética em alguma instância, atribuir valor a uma afirmação ou a outra fica a critério de cada indivíduo engajado com a problematização do assunto. É claro que tenho minha opinião sobre este tema, mas mais importante do que ela é a discussão que pode surgir a partir do debate de ideias opostas em um ambiente aberto para tal. Dessa maneira, criamos a oportunidade para que uma terceira nova ideia surja na qual o lado bom das duas ideias originais seja maximizado e o lado ruim, minimizado.

Pois então caro leitor, qual sua posição sobre este assunto? Deixe sua opinião nos comentários.

Referências:

Erard, M. 2015 What’s in a name? Science

Wansink, B. et al 2005 How descriptive food names bias sensory perception in restaurants Food Quality and Preference

5 respostas em “A rata Zana

  1. Ola Joao Victor! Ja estudei na Psicobio e achei muito engraçado esse tema! Por que não, certo?! Eu, que nunca iniciei uma experimentação em ratos ou em camundongos por um projeto próprio, (apenas nas aulas práticas) imagino que isso possa causar algum apego por parte do experimentador… Como seria com um animal (neste caso, com vários) de estimação… Mas talvez esse tenha sido o motivo de nunca ter me arriscado com a experimentação em animais, pela tristeza do sacrificio. Como seria sacrificar um animal apelidado de “fofucho”, ou algum outro nome carinhoso!? Ahahhahah! Obrigada pelo espaço! Abs, Thais

  2. Apesar de, na minha área, as telecomunicações, não haver motivo para nomear os equipamentos que usamos em experimentos, sou a favor de não se utilizarem nomes. Acredito que, realmente, haja uma tendência a se alterarem conclusões com base em informação prévia a respeito de um nome.

    Claro que a vida dos animais deve ser respeitada durante quaisquer experimentos mas, creio eu, que não há nada pior que apegar-se ao objeto de seu estudo para que conclusões errôneas e defesas baseadas em emoções comecem a se esgueirar para dentro de uma pesquisa científica.

    • Interessante esse seu argumento Palhao. Concordo com você que conclusões erradas podem ser cometidas dado um conhecimento ou crença prévio carregado por um nome. Por outro lado, essa questão do apego é um assunto bem delicado: até que ponto uma atenção e um cuidado especial é prejudicial ao experimento? É uma linha bem tênue que provavelmente não é a mesma para todos os tipos de experimentos tampouco para todos os modelos animais.

    • Hahahahahaha, esse quadro ai do John Oliver foi bem legal. É uma boa alternativa usar animais fofinhos e engraçados para chamar a atenção da população para assuntos importantes. A TV Câmara podia usar essa tática e ver no que vai dar.

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