Revisão por pares: um mal necessário? (Parte 1)

Um dos argumentos mais utilizados pelos defensores da Ciência e dos métodos que ela emprega para compreender a natureza é justamente a maneira pela qual ela realiza tal feito. O Método Científico – que não se limita somente à observação de um fenômeno e a formulação de uma hipótese que o explique, mas também pelo teste destas explicações – é o cerne de tal empreitada. Contudo, para aqueles que se encontram inseridos dentro do meio acadêmico e envolvidos com uma pesquisa científica, o trabalho não termina quando uma hipótese é rejeitada ou não. O “último” passo de uma pesquisa é a publicação de seus achados em uma revista científica. Tal passo envolve uma etapa que por muitos é encarada como o mecanismo de controle de qualidade da ciência e por outros como a âncora que atrasa o seu avanço: a revisão por pares (peer review).

creditos james yang

Creditos James Yang

A ideia da revisão por pares é muito simples: um grupo de pessoas especializadas no assunto abordado por seu trabalho irá julgá-lo e dar seus respectivos pareceres sobre ele. Este modelo baseia-se num pressuposto credencialista onde pessoas que detém determinado título ou credencial (doutor, professor, especialista no assunto etc) são consideradas aptas para julgar o que constitui um conhecimento válido ou não.

Contrariamente ao que muitas pessoas pensam, a revisão por pares não é uma coisa que sempre existiu na história da publicação científica. Suas origens surgiram por volta de 1731 com a Sociedade Real de Edimburgo e em 1752 com a Sociedade Real de Londres. A diferença da revisão por pares feita há quase 300 anos atrás para a atual se dá principalmente pelo objetivo de cada uma: ao passo que a atual visa julgar a qualidade e credibilidade da pesquisa, a antiga buscava barrar trabalhos onde fossem observados indícios de heresia ou sedição, algo próximo à censura. Isso se dava por conta da grande proximidade entre as sociedades de pesquisa e o Estado. Com o passar dos anos, a publicação científica começou a se desvencilhar do poder do governo e passou a ser mais independente.

Durante muito tempo, a decisão sobre o que seria publicado ficou a cargo dos editores das revistas, porém, a partir do fim do século XVIII três fatores mudaram de vez a revisão por pares transformando-a no que ela é hoje. O primeiro deles foi o contínuo aumento da especialização de áreas de pesquisa o que tornou impossível para que apenas uma pessoa fosse capaz de julgar com precisão trabalhos que variam da geografia física ao funcionamento renal, da mecânica dos fluídos à etologia. O segundo fator foi o aumento do número de cientistas e o aumento das tecnologias voltadas para a escrita como máquinas de escrever e computadores. Assim, mais cientistas trabalhando e produzindo um grande volume de trabalhos escritos levaram a um aumento das submissões às revistas. Com um volume de trabalhos submetidos enorme, os editores das revistas não tinham tempo para avaliar todos os artigos, por isso uma saída foi “terceirizar” a avaliação deste conteúdo através dos próprios pesquisadores. O terceiro e último fator, também impulsionado pelo desenvolvimento tecnológico, foi a criação de fotocopiadoras. Com estas máquinas um mesmo trabalho poderia ser facilmente distribuído para muitas pessoas ao mesmo tempo facilitando todo o processo editorial.140715_EDU_PeerReview.png.CROP.original-original

Neste momento você pode até pensar que se a revisão por pares existe há tanto tempo ela deve ser uma ótima ideia. Muitos pesquisadores e o público geral vêm o peer review como um filtro que separa as publicações ruins das boas fazendo com que apenas aquilo que pode ser considerado “conhecimento válido” seja difundido. Em teoria, esse é justamente um de seus objetivos, no entanto, a maneira pela qual ela é feita atualmente gera efeitos negativos no próprio avanço científico. Isso não quer dizer que devemos derrubar esse processo e começar do zero, pelo menos não pra mim. Isso quer dizer que apesar de ajudar em alguns aspectos ela atrapalha em outros. Por isso precisamos buscar maneiras de contornar ou acabar com tais obstáculos tornando o processo mais efetivo e construtivo. Na segunda parte desta série irei explorar melhor tal questão, mas agora vamos ver como funciona a revisão por pares.

Um pesquisador ao submeter o manuscrito de seu trabalho para uma determinada revista científica terá seu trabalho julgado por uma comissão de dois a três outros pesquisadores da mesma área para avaliar a qualidade de sua pesquisa e propor mudanças antes da sua publicação final ou de sua rejeição. No julgamento, os revisores levam em consideração fatores a serem determinados pela revista, mas em geral, alguns dos quesitos são: a lógica dos argumentos usados para proposta de tal trabalho (por que este trabalho deveria ter sido feito e o que ele acrescenta à sua área?); a solidez metodológica empregada (os métodos utilizados para responder às hipóteses formuladas são os ideais e foram conduzidos da maneira correta?); e por último, a confiabilidade e extrapolação dos achados obtidos (as conclusões que os autores chegaram estão de acordo com os resultados encontrados e com a literatura acerca deste tema?). Caso seja aceito, o artigo pode ser indicado para publicação como está ou os revisores podem propor alterações no manuscrito antes de sua publicação.

esquema revisão por pares

Mesmo que a proposta básica seja a mesma, existem muitas maneiras de se fazer a revisão por pares, e cada revista científica pode eleger aquela que mais condiz com sua própria política. A essência da diferença entre cada um dos estilos está no conhecimento (ou não) da identidade dos autores do trabalho e dos revisores entre si. É importante considerar que não existe o padrão-ouro da revisão por pares, ou seja, não existe um modelo necessariamente melhor que o outro.

  • Simples-cego (single-blind)

simples cegoDescrição: Neste estilo de revisão por pares, os revisores sabem o nome e a instituição dos autores, mas os autores não sabem quem são os revisores. Vantagens: Segundo algumas pesquisas, investigadores jovens tendem a preferir este método pois, com medo de sofrerem represálias ao julgar o trabalho de algum pesquisador sênior, podem se manter anônimos. Além disso, quando os revisores têm a escolha de expor ou não seus nomes após a negação de um trabalho, apenas 14% escolhem expor seus nomes. Isto indica que há certa aversão a se identificar caso a decisão seja negativa. Se o trabalho for aceito, a taxa de identificação aumenta para 50%. Desvantagens: Muitas pessoas acreditam que o anonimato cria um ambiente favorável para que revisões desleixadas e pouco construtivas sejam feitas. Num nível mais profundo, este anonimato pode também favorecer a prática de condutas antiéticas por parte dos revisores. Neste sentido, a crítica a este estilo se dá pelo fato de os revisores não tomarem total responsabilidade pela revisão feita.

  • Duplo-cego (double-blind)

duplo cegoDescrição: Neste estilo de revisão, o nome dos autores não é revelado aos revisores e vice-versa. Vantagens: Além da maior confiabilidade por parte dos pesquisadores, o anonimato dos dois lados pode funcionar como um motivo para revisões mais elaboradas e de também reduzir a chance de vieses oriundos da identificação de um dos lados. Dessa maneira, a qualidade da pesquisa é avaliada apenas por seu mérito científico. Desvantagens:  Ao que revistas e pesquisadores sugerem, o total anonimato do autor é algo muito difícil de ser alcançado dado que características do trabalho como citações, metodologia ou tema de pesquisa podem identificar os autores. Além disso, existe também a ideia de que é importante para os revisores saberem a identidade dos autores para melhor compreender a pesquisa e detectar com mais facilidade casos de plágio.

  • Revisão por pares aberta (open peer review)

open reviewDescrição: Neste formato, tanto a identidade dos autores quanto a dos revisores são reveladas entre si. Um segunda característica adotada por algumas revistas de revisão aberta é a publicação de todo o histórico pré-publicação* juntamente com o artigo. Vantagens: Aqueles que apoiam este formato defendem que a transparência total do processo de revisão cria um ambiente onde os revisores são mais honestos e atenciosos  já que eles terão seus nomes atrelados àquela publicação. A explicação para a publicação do histórico pré-publicação é de que toda a discussão que houve entre os autores e revisores do trabalho, mas que não necessariamente foram incluídas no trabalho final, ainda sim tem um valor cientifico importante. Desvantagens: Assim como eu comentei a respeito na revisão simples cego, pesquisadores jovens podem se sentir inibidos ou se negar a revisar o trabalho de pesquisadores sêniores e terem seus nomes expostos. Além disso, como sugere uma pesquisa, apenas uma pequena parte de revisores está disposta a revelar seu nome em caso de rejeição do trabalho.

Agora que já sabemos a história da revisão por pares e como ela funciona podemos tentar compreender nosso objeto de estudo por uma ótica mais ampla. Na segunda parte desta série iremos ver os argumentos pelos quais muitas pessoas vêm esta prática como algo prejudicial ao desenvolvimento científico e identificar quais ações estão sendo feitas para remediar e melhorar as chagas deste sistema.

* manuscrito original, cartas de revisão e respostas do autores.

Referências

van Rooyen, S. et al 1999 Effect of open peer review on quality of reviews and on reviewers’ recommendations: a randomised trial. BMJ

Mulligan, A. 2013 The peer review landscape: what do researchers think?

Wellcome Trust 2015 Scholarly communication and peer review: the current landscape and future trends

The history of peer review. Planned Obsolescence

Who is afraid of open peer review? PeerJ

Uma resposta em “Revisão por pares: um mal necessário? (Parte 1)

  1. Pingback: Revisão por pares: um mal necessário? (Parte 2) | Prisma Científico

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s