A rata Zana

Há um bom tempo atrás, durante minha iniciação científica, vivi um momento um tanto inusitado. Enquanto eu terminava de arrumar o material que acabara de usar em um experimento, um professor que fazia parte do mesmo laboratório que o meu começou a receber alguns alunos para discutir a nota da prova final deles. Eis que uma de suas alunas, ao caminhar para fora da sala após uma intensa negociação de 0,3 ponto deparou-se com uma caixa-moradia onde estavam alguns camundongos. Como prática rotineira laboratorial, cada caixa deve ter uma etiqueta onde informações importantes são escritas, como por exemplo, o nome do experimentador responsável por aqueles animais. Ao ler o nome “João Victor” na etiqueta, a garota olhou para mim e para o professor e disse com um sorriso no rosto: “Que bonitinho! Eles têm nomes!”. Inevitavelmente, após a aluna sair da sala, eu e o professor não conseguimos evitar o riso e a incredulidade: como alguém acha que nós damos nome aos camundongos? Continuar lendo

Pequenos cérebros, grandes ideias – Prisma Entrevista

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Você já deve ter ouvido falar de algum laboratório ou cientista que utiliza chipanzés ou outros primatas para fazer experimentos científicos e entender melhor algum fenômeno biológico também observado no ser humano. Talvez já tenha visto alguma pesquisa na televisão que empregou algum roedor como modelo de alguma doença e baseou-se neste estudo para desenvolver algum fármaco. Mas você sabia que moscas, abelhas e até vermes podem ser utilizados para compreender melhor nosso organismo e muitas dos fenômenos e características marcantes da raça humana?

Em outubro deste ano (2014) participei da 3ª edição do curso Small Brains, Big Ideas (SBBI) oferecido em Santiago e Valparaíso no Chile, com o intuito de treinar jovens cientistas da América Latina em diversas abordagens experimentais fazendo uso de animais invertebrados. O curso foi majoritariamente organizado por professores de diversas faculdades chilenas com a participação de docentes de faculdades norte americanas e inglesas. Dê uma olhada no vídeo de divulgação da 3ª edição do SBBI!

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Os Corvos e a sua Guerra dos Tronos

Antes de tudo, leitor, clique aqui e deixe a música criar o clima para o texto.

Corvos são animais que para a mitologia e literatura se encontram em um espaço limítrofe entre o mundo espiritual e o mundo real, das religiões pagãs até “O Corvo” de Allan Poe, eles são vistos em geral como detentores do conhecimento místico da morte e, em algumas culturas,  como seres que carregam consigo os maus presságios pelo seu hábito necrófago e a sua cor negra. No seriado Game of Thrones (inspirado na série de livros “As Crônicas de Gelo e Fogo”) a imagem do corvo surge em alguns momentos com a sua habitual ligação mística (“o corvo de três olhos”) e em outros como o grupo de “soldados” servindo para sempre na solidão da muralha, protegendo o continente, um exército formado pela escória do mundo… E esse cara:

Sem título

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Por que fez o que fez? Decisão pontual ou hábito!

Geralmente o nosso corpo promove uma ação motora por tomar determinada decisão que pode ser coordenada por diferentes razões: as vezes para atingir um objetivo pontual e específico em determinado momento (me dirijo até uma loja para comprar um vídeo game durante a promoção do Black Friday) e, outras vezes, por hábito (acordo todos os dias de manhã para um corrida). É nessa linha de pesquisa que começarei a investigar os mecanismos neurofisiológicos e comportamentais da dependência, durante o pós-doutoramento que iniciei no National Institutes of Healthy (NIH) nos EUA, em novembro de 2013. Vale pontuar que existem muitas evidências que os comportamentos motores que nos levam a buscar alguma recompensa (comida, bebida, sexo) têm semelhanças e homologias importantes com os mecanismos que ocorrem nos roedores. Em meio à discussão continuada que devemos fazer sobre ética, trago mais informações e exemplos que indicam que o  uso de animais na Ciência é importante, mas sempre deve ser justificável. Continuar lendo

Por que os modelos computacionais não podem substituir os modelos animais?

A resposta mais apropriada é porque um depende do outro!

Em meio a tantas discussões sobre o uso de animais pela Ciência (vale ler os posts anteriores do Prisma:Ética na experimentação animal (parte 1)”, “Ética em Experimentação Animal (Parte 2) – os 3 Rs” e  “Snoopy e a experimentação animal”), um dos argumentos levantados é a alternativa de se utilizar outros métodos como, por exemplo, as simulações computacionais. Minha vontade em escrever esse post surgiu de uma preocupação com a desinformação que existe a respeito dos métodos alternativos. Sinto-me na obrigação de trazer os fatos àqueles que acreditam nessa alternativa salvadora para todas as questões da Ciência e, salvadora também, para os animais utilizados nos laboratórios de pesquisa. De forma alguma quero impôr minha opinião mas sim, abrir um canal de argumentação lógica e cientificamente embasada sobre a questão do uso de animais na Ciência. Continuar lendo

Snoopy e a experimentação animal

Imagine a seguinte situação: um bando de pessoas entra no seu escritório, quebra o seu computador, rouba o seu trabalho, destrói móveis e espalha coisas pelo chão. Tudo isso porque acharam que você estava fazendo seu trabalho errado. Bizarro, não?

Infelizmente não consegui escrever antes sobre o assunto. No entanto, ao longo dos últimos dias, reuní diversos links que podem nos ajudar a entender do tema, links estes que serão indicados ao longo do post. Leia o texto dos links antes de avançar neste texto do Prisma (alguns podem ser repetitivos, mas todos são de alto nível).

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Além do Behaviorismo – Parte 1

No início do século passado, B.F. Skinner (1904–1990)  era um dos grandes nomes da psicologia. Grande estudioso do comportamento, usava pombos como modelo. Skinner foi o pai do behaviorismo radical (ainda tenho minhas dúvidas se devemos pronunciar “be-a-viorismo” ou “birreiviorismo”. Eu particularmente gosto mais da primeira opção).

Em linhas gerais, o behaviorismo dizia que as respostas individuais a diferentes estímulos ambientais modulariam nossos comportamentos. Além disso, o comportamento não levaria em consideração nossos estados mentais internos. Ou seja, se uma ação que eu executei foi vantajosa, há uma maior chance de ela acontecer novamente, porque meu comportamento foi modificado, sem que eu tenha consciência disso. Por exemplo, um bebê quando tem fome (estímulo), chora (resposta). Com o choro, consegue alimento (consequência). A pequena criança faz isso sem consciência. Na próxima vez que tiver fome, há uma maior probabilidade de chorar para conseguir alimento. Sua ação perante um estímulo lhe foi vantajosa, logo seu comportamento foi modificado e tem maior chance ser recorrente.

Os behavioristas chamavam esse tipo de aprendizagem como S-R-C (estímulo-resposta-consequência ou recompensa). Skinner acreditava que todos os nossos comportamentos eram baseados e poderiam ser explicados pelo behaviorismo. Até que um outro psicólogo americano veio de encontro às teorias do behaviorismo radical. Esse era E.C. Tolman. Continuar lendo