Por que o Crack? Parte 1 – Qual a droga que mais causa prejuízos?

Você possivelmente já ouviu falar do programa chamado Crack, é possível vencer. Caso não, este é um programa que visa a distribuição de cerca de 4 bilhões de reais em recursos da União para políticas públicas sobre o crack E OUTRAS DROGAS em todo território nacional. Não deixei em caixa alta “e outras drogas” sem querer. Este projeto possui medidas de prevenção, cuidado e autoridade não somente para o crack, mas também para as demais drogas de abuso. Com isso, gostaria de te convidar a refletir um pouco sobre essa ênfase conferida ao crack pelo programa.

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Falácias de mesa de bar (2)

Certa vez, durante um banquete na Grécia Antiga, um belo rapaz chamado Alcebíades – talvez o mais belo entre os atenienses – após tomar muito do vinho azedo que serviam naqueles tempos se irritou com a presença de Sócrates na mesa e, em um rompante passional, começou a atacá-lo colérica e apaixonadamente. Acusando Sócrates de ter uma retórica apaixonante como a de sátiros tocando flauta na floresta, como que se enfeitiçasse os corações ingênuos, acusando Sócrates de o perseguir em todas as suas noites de sono… Os seus sonhos não mais seriam os mesmos até o dia da sua morte, pois desejava Sócrates e este não se importava com ele. Sócrates era um homem fantástico e cruel e por isso não deveria ser idolatrado, mas sim excluído das rodas dos mortais para sempre!

Como estamos vendo, utilizando de uma falácia clássica – o ad hominem – Alcebíades acusou Sócrates de não possuir certos valores morais que, na Grécia Antiga, basicamente queria dizer “a vontade de possuí-lo” mesmo. Triste e apaixonado, Alcebíades aparentemente não leu o meu texto anterior sobre falácias na mesa de bar (clique aqui para entender um pouco mais dessa bagunça) e utilizou uma falácia contra Sócrates, o chato dos chatos, o maior dos retóricos. Pois Sócrates respondeu à altura de toda a sua sapiência disfarçada de ignorância:

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“Só sei que nada sei, gente.”

Mistura perigosa: Álcool e gente. É, meus amigos, se nem na Grécia Antiga havia como escapar dos barracos e falácias, imagine hoje… Após esse prólogo é hora de mais um texto sobre as falácias na mesa do bar!

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Álcool: dificuldade em parar, problema de memória à vista! (parte 3)

Alcoholism-addictionNos últimos dois posts sobre o álcool, droga de abuso lícita tão comumente usada por muitos e muitos milhões de pessoas, falei um pouco da epidemiologia e dos seus efeitos agudos (Álcool: consumir ou não, eis os seus efeitos), e também mencionei alguns dos fatores que fazem com que um indivíduo possa transitar do uso controlado de álcool para o exagerado (Álcool: se faz alegre, por que se preocupar?). Neste post gostaria de comentar um pouco das explicações científicas atuais (bem recentes meeeesmo!) para o fato de que um indivíduo, já em fase de dependência de álcool, tem grande dificuldade de se livrar do seu uso. Na minha opinião, e de outros cientistas, a dependência de drogas é um processo relacionado à formação de “memórias aberrantes” dos estímulos associados à droga (Torregrossa et al., 2011 – boa revisão!). Quê? Ficou difícil? Vamos explicar com calma! Continuar lendo

Álcool: se te faz alegre, por que se preocupar? (parte 2)

O uso de qualquer droga de abuso se inicia com a vontade do indivíduo em buscar uma nova alternativa de prazer ou se sentir melhor: seja pelos efeitos da droga em si, seja para socializar com a grupo a qual pertence. Na verdade a experimentação de qualquer atividade da vida vem carregada da vontade em se buscar algo prazeroso ou que traga saciedade. Quando nos deparamos com algum estímulo aversivo, o nosso cérebro é reprogramado para evitar este estímulo (acontece uma diminuição da liberação de dopamina na circuitaria de recompensa cerebral – gráfico em azul da figura abaixo). Por outro lado, quando nos deparamos com um estímulo prazeroso, nosso cérebro lança um sinal (aumento de dopamina no núcleo accumbens, região cerebral relacionada ao sistema de recompensa e importante para os efeitos das drogas de abuso – gráfico em vermelho da figura abaixo) para que futuras ações levem à busca deste mesmo estímulo. Continuar lendo

Álcool: consumir ou não, eis os seus efeitos (parte 1)

 Desde o início da minha carreira acadêmica tenho um interesse no estudo da neurobiologia associada à adaptações comportamentais decorrentes da exposição crônica às drogas de abuso, mais especificadamente ao álcool. Gostaria de dividir aqui um pouco dos aspectos gerais relacionados aos efeitos e à dependência de álcool. Seu uso abusivo é um problema médico e social tão antigo quanto a história da civilização humana. Existe uma passagem notória da Bíblia que se refere ao semita Noé: “Noé, que era agricultor, plantou uma vinha. Tendo bebido vinho, embriagou-se, e apareceu nu no meio de sua tenda” (Bíblia Sagrada, Gênesis, capítulo 9, versículos 20-21). É provável que as primeiras doses de álcool consumidas pelo ser humano tenham sido provenientes de fermentações acidentais. A representação do uso de álcool foi corporificada por Dionísio, Deus do êxtase e do entusiasmo, sendo o seu uso abusivo uma prática muito comum naquela época. É inevitável, portanto, perceber que a espécie humana sempre buscou maneiras de alterar a própria consciência (Huxley, 1954). Continuar lendo