Você é uma Kardashian?

No dia em que um módulo da sonda Rosetta conseguiu pousar em um cometa, um retumbante e inédito feito para a humanidade, o assunto mais comentado da internet foi um outro tipo de abundante passo para a nossa sociedade: Uma foto de Kim Kardashian West na revista Paper mostrando os seus também retumbantes, embora não tão inéditos, atributos:

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Você já viu a parte debaixo da imagem em algum outro lugar que eu sei, não precisamos colocá-la aqui.

As subcelebridades são conhecidas por ganhar fama sem ter muita contribuição para a humanidade pelas conquistas artísticas, políticas ou humanitárias, quanto mais pelas descobertas científicas. Já os cientistas são conhecidos por… Na verdade, os cientistas não são muito conhecidos. É comum lermos histórias de muitos cientistas que morreram sem o reconhecimento público.

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Ciência é coisa do Demos – Parte 2

Partindo da premissa de que os resultados e conhecimentos obtidos através de pesquisas científicas devem ser, sempre que possível, aplicados na prática para o bem social, ou seja, devolvidos ao povo, escrevi o texto Ciência é coisa do Demos. Esta ideia em particular não é solitária, outros pesquisadores também a defendem. Porém, considerando algumas questões não abordadas, e por parecer uma mera opinião isolada, este novo post vem para ajudar a discutir melhor e levantar outros pontos importantes sobre o que foi previamente exposto.

Robert Lackey argumenta que cientistas devem contribuir para o processo político, não bastando que se ocupem de publicar seus achados em artigos acadêmicos. Para ele, a contribuição política dos cientistas não é somente a decisão correta a se tomar, mas sim uma obrigação, especialmente quando os estudos forem financiados por recursos públicos.

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Falácias de mesa de bar (2)

Certa vez, durante um banquete na Grécia Antiga, um belo rapaz chamado Alcebíades – talvez o mais belo entre os atenienses – após tomar muito do vinho azedo que serviam naqueles tempos se irritou com a presença de Sócrates na mesa e, em um rompante passional, começou a atacá-lo colérica e apaixonadamente. Acusando Sócrates de ter uma retórica apaixonante como a de sátiros tocando flauta na floresta, como que se enfeitiçasse os corações ingênuos, acusando Sócrates de o perseguir em todas as suas noites de sono… Os seus sonhos não mais seriam os mesmos até o dia da sua morte, pois desejava Sócrates e este não se importava com ele. Sócrates era um homem fantástico e cruel e por isso não deveria ser idolatrado, mas sim excluído das rodas dos mortais para sempre!

Como estamos vendo, utilizando de uma falácia clássica – o ad hominem – Alcebíades acusou Sócrates de não possuir certos valores morais que, na Grécia Antiga, basicamente queria dizer “a vontade de possuí-lo” mesmo. Triste e apaixonado, Alcebíades aparentemente não leu o meu texto anterior sobre falácias na mesa de bar (clique aqui para entender um pouco mais dessa bagunça) e utilizou uma falácia contra Sócrates, o chato dos chatos, o maior dos retóricos. Pois Sócrates respondeu à altura de toda a sua sapiência disfarçada de ignorância:

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“Só sei que nada sei, gente.”

Mistura perigosa: Álcool e gente. É, meus amigos, se nem na Grécia Antiga havia como escapar dos barracos e falácias, imagine hoje… Após esse prólogo é hora de mais um texto sobre as falácias na mesa do bar!

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Um artigo científico em sua boca

Você já passou dias com uma sensação estranha na boca, uma coceira não dolorida, que trocava de local várias vezes por dia? Jonathan Allen já.

E essa coceira, que se assemelhava a quando você morde uma batata frita e a ponta machuca o céu de sua boca, deixava um rastro em sua boca, como o de uma serpente na areia? Na de Jonathan Allen sim.

Você já sentiu a sensação de alguma coisa movendo em sua boca e a cada vez que a sua língua desliza por ela, ela se move insistentemente na direção contrária? Hum… Aposto que demorou um pouco para responder essa, mas enfim, Jonathan Allen sentiu.

E quando você descobriu que ali poderia estar um organismo vivo, você imediatamente mandou um e-mail para os seus colaboradores para que todos pudessem estudar esse possível ser que flanava por suas bochechas? Bom, a resposta você já deve ter imaginado.

O que você vê nessa imagem?

Você vê um co-autor nessa imagem?

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Falácias de mesa de bar

A primeira cerveja gelada desce na mesa de um bar onde você e seus amigos resolveram se desligar um pouco das batalhas diárias que travam em suas vidas atribuladas. Todos estão tranquilos. Futebol, literatura e outros tipos de entretenimento estão sendo discutidos. Rola um elogio ao novo volante vindo das divisões de base, uma brincadeira com o jeito alegre de jogar do time adversário e um comentário pertinente sobre a escrita de tal autor. Até a quarta cerveja, já fria, o assunto vai fluindo, outros tópicos entram em discussão, como o novo álbum de um cantor de MPB que não ficou tão bom assim, aquele livro com piadas inteligentes que todo mundo deveria ter lido ou os supostamente belos filmes daquele diretor dinamarquês com um significado muito mais profundo do que apenas mutilação de genitálias e planetas se chocando. Aí lá para a sétima ou décima quinta cerveja, já nem tão geladas assim, o papo passa a ser menos criterioso, seja você estudante, profissional ou professor, as maiores besteiras vão escapar da sua boca. Você sabe do que estou falando, você já esteve nessa situação. E daqui para frente a discussão vai ficar ainda mais espinhosa.

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“Hum, a discussão está tão leve e descontraída… É hora de animar as coisas.”

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Os Miseráveis

Quando recebi a notícia de que o espetáculo “Os Miseráveis” (Les Miserábles), adaptação musical do romance de Victor Hugo, estaria ganhando uma versão cinematográfica, logo quis escrever um texto com essa referência por gostar muito do livro e do musical. O filme apenas será lançado em 2013 no Brasil, mas a expectativa é grande, apesar de termos de ouvir Russell Crowe cantando…

As primeiras páginas do romance “Os Miseráveis” contam com a personagem Jean Valjean pedindo de albergue em albergue por um quarto e uma refeição, só para ser escorraçado em todas as suas tentativas, por ser um recém-liberto – em condicional – de sua pena de prisão de dezenove anos, cinco por roubar um pão para tentar alimentar a sua família e mais quatorze por tentativas recorrentes de fuga. Para mim, na academia, a comparação mais óbvia dessa jornada arredia e incerta, com diversas dúvidas sobre o futuro – com muitas possibilidades, boas e ruins – seria a dos “miseráveis” da hierarquia acadêmica, os estagiários da ciência, aquele que seria o primeiro degrau do futuro cientista: o estudante de Iniciação Científica.

Cosette acadêmica Les miserables

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A “cristalização” de conceitos e o erro de Lamarck

Durante toda nossa vida de aprendizado, nos deparamos com determinadas situações que tem o objetivo de explicar determinados conceitos.  Exemplos clássicos referem-se aqueles exemplos, que geralmente melhor representam um determinado conceito dentro de uma teoria. Livros didáticos sejam eles de física, química ou biologia, são recheados de tais exemplos.

Os conceitos que são apresentados a fim de explicar teorias, principalmente aqueles mais antigos, podem não ser atualizados ao longo do tempo e com isso corremos o risco de perder a perspectiva histórica e os achados de investigações posteriores na área de estudo.

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