Prisma Entrevista: Caçadores de Neuromitos

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O que você sabe sobre o seu cérebro é verdade?

Para nos aprofundarmos nessa questão, confira a nossa entrevista com a Dra. Larissa Zeggio, uma das autoras do Livro “Caçadores de Neuromitos” lançado em Junho de 2015:

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Legenda: Organizado pela Profa. Roberta Ekuni, Dra. Larissa Zeggio e Prof. Dr. Orlando Francisco Amodeo Bueno

Prisma Científico: O que é um Neuromito e qual o seu embasamento em geral?

Dra. Larissa Zeggio: Neuromitos são concepções equivocadas sobre o funcionamento do sistema nervoso e, em especial, do cérebro. Em geral, esses equívocos se tornam conhecidos e difundidos por meio da mídia que acaba simplificando resultados de pesquisas neurocientíficas em divulgações populares (jornais, revistas, programas de TV, etc.).

Prisma Científico: Na sua opinião, quais são alguns dos Neuromitos mais difundidos na população hoje em dia?

Dra. Larissa Zeggio: Há várias pesquisas que mostram os neuromitos que estão na lista “top 5”, embora os erros mais populares sobre o cérebro dependam do tipo de público amostrado, como professores de ensino básico, estudantes de psicologia, etc. Entre os mais populares neuromitos estão: a ideia de que usamos 10% do cérebro; a classificação de que pessoas criativas usam mais o hemisfério direito enquanto pessoas racionais usam mais o hemisfério esquerdo; a concepção de que ginástica cerebral melhora nosso cérebro; o paradigma de que o processo de aprendizagem (e plasticidade cerebral) acontece até os 6 anos de idade; a ideia de que bebês que ouvem música clássica ficam mais inteligentes; entre outros que discutimos no livro.

 Prisma Científico: Qual é o caminho que o nosso leitor deve seguir para verificar se o que ele ouviu sobre o nosso cérebro é verdade ou mito?

Dra. Larissa Zeggio: O ideal é sempre irmos atrás da fonte original de informação, ou seja, o(s) artigo(s) científico(s) que mostra os resultados da pesquisa que está “afirmando” aquilo sobre o cérebro. Assim é possível fazer uma leitura crítica do dado e analisar o seu peso em relação à afirmação.

Entretanto, isso não é tão fácil por algumas razões: 1) os artigos científicos em geral estão escritos em inglês, o que limita o acesso da maior parte dos brasileiros; 2) nem todos os artigos científicos produzidos têm acesso liberado nos portais de pesquisa, e é necessário pagar em vários casos enquanto em outros casos artigos antigos podem ser de difícil localização; 3) Na maioria das vezes, a leitura de apenas 1 artigo científico não é suficiente para compreender a tal afirmação e deve-se tomar cuidado com interpretações e afirmações isoladas, sem consenso entre cientistas. Assim, o caminho mais fácil talvez seja consumir informação confiável, de universidades e grupos de pesquisas que façam esse resumo compreensivo para a população, quando o acesso à fonte original é difícil.

Nos capítulos do Caçadores de Neuromitos, os autores tiverem bastante cuidado enquanto estavam desmitificando várias dessas afirmações. Pesquisas extensas, em linguagem mais acessível e sem tantos jargões científicos foram realizadas e apresentadas nos textos mostrando como interpretações levianas podem ser perigosas, e como nem sempre há um consenso sobre o funcionamento do cérebro.

 Prisma Científico: Quais são os possíveis impactos da difusão dos Neuromitos em nossa sociedade?

Dra. Larissa Zeggio: Vários impactos e alguns bem perigosos. Acho que o mais comum é o desperdício de recursos financeiros e de tempo consumindo essas informações erradas: seja na compra de livros, revistas, produtos ou pseudo-métodos que se dizem neuroqualquercoisa. O impacto mais perigoso é verificar que parte de nossas ações de larga escala em escolas, empresas, relacionamentos afetivos e até educação de filhos é baseada em afirmações que não apenas não melhoram o que se propõem quanto podem prejudicar os indivíduos.

Prisma Científico: Como os Neuromitos podem ser desconstruídos e na sua opinião, quais são os maiores desafios dessa tarefa?

Dra. Larissa Zeggio: Sabemos que acesso a informação de qualidade é necessário, mas não é suficiente. Muito mais do que saber informações corretas e compreender porque uma neuromito está errado, as pessoas precisam aprender a pensar criticamente e buscar uma formação científica básica para identificar erros de modo geral. Do contrário, cada neuromito que aparece acaba se tornando senso comum antes de ser desmitificado. E novos aparecerão, com certeza. Assim, o investimento em divulgação científica é importante, mas o investimento em formação científica no ensino básico não pode ser menosprezado.

 Prisma Científico: Você poderia nos falar um pouco sobre a importância da divulgação científica na sua vida acadêmica e profissional?

Dra. Larissa Zeggio: Esse é um movimento que me permeia desde sempre, embora tenha se tornado ação prática apenas mais recentemente. Eu comecei a lecionar em 2002 e rapidamente percebi que os alunos – de graduação! – eram facilmente seduzidos por afirmações simplificadas da mídia e não conseguiam diferenciar uma evidência científica do senso comum ou até de dogmas religiosos. Além disso, minha experiência clínica me empurrava para tentar traduzir para pacientes informações científicas que eu julgava que poderiam ser significativas nas vidas deles. Era uma vontade de empoderar aquelas pessoas, de compartilhar informação. Como consequência trabalhei com psicoeducação, algo que ainda continuo fazendo na área de habilidades socioemocionais. Em 2011 me associei a um lindíssimo projeto do CENSUPEG de ampliar a formação de professores com conceitos básicos de neurociências relacionados à aprendizagem. Comecei a lecionar sobre neurociências para professores em diversos estados brasileiros e a realidade me chocou: era gritante a quantidade de neurobobagens e era emocionante o quanto os professores eram ávidos para aprender. Só faltava acesso à boa informação e em linguagem menos hermética que a normalmente usada nos artigos científicos. Nesse momento eu tive certeza de que tão ou mais importante que a produção de artigos científicos era a produção de informação científica para a população. Dei aula, fiz blog, site, página do facebook, até que encontrei a Profa. Roberta Ekuni em um congresso e compartilhamos a ideia de organizar esse livro.

 Prisma Científico: Como surgiu a ideia do projeto que resultou no lançamento do livro “Caçadores de Neuromitos” e qual é a sua proposta?

Dra. Larissa Zeggio: Foi uma confluência de ideias e desejos. O livro – que será uma coleção e se desdobra ainda em outras ações – foi a maneira de materializarmos isso. A Profa. Roberta Ekuni já vinha discutindo com o Prof. Orlando Bueno a proposta de fazer um site e/ou livro de divulgação científica com Neuromitos. Os neuromitos eram meu principal desafio na prática docente, pois os via atrapalhando a formação de professores nas diversas cidades que lecionava. Eu queria fazer um livro que virasse um aplicativo de celular sobre neuromitos. Em 2013 eu e Roberta nos encontramos no congresso do IBNEC em São Paulo e tivemos um longo almoço. Depois longas reuniões por Skype acertando o que seria o projeto. Foram quase dois anos de trabalho duro. Então, resolvemos criar um Fundo de Combate aos Neuromitos que apoiasse ações de divulgação em neurociências, tanto nossas ações quanto de outros grupos de pesquisa e extensão.

A proposta geral é que o Fundo de Combate aos Neuromitos promova eventos e palestras em divulgação neurocientífica, mantenha um site sobre neuromitos, desenvolva um aplicativo para celular e organize a coleção de livros “Caçadores de Neuromitos”. Por enquanto, a verba para essas ações vem da venda do livro que acabamos de lançar. Todo o dinheiro obtido com os direitos autorais de organizadores e autores do livro é integralmente revertido para essas ações. Estamos reformulando nosso site para aceitar doações de pessoas físicas e jurídicas que queiram contribuir com a divulgação científica e a caça aos neuromitos.

 Prisma Científico: Para finalizar, gostaria de agradecer a Dra. Larissa por ter aceitado o nosso convite e concedido essa Entrevista. E a pergunta que não quer calar, como faço para adquirir o Livro?

Dra. Larissa Zeggio: Obrigada pela oportunidade de divulgar essa proposta aqui no PRISMA, os artigos de divulgação de vocês são sempre inspiradores.

E quem quiser se divertir com a Caça aos Neuromitos e ainda contribuir para o projeto basta entrar no nosso site que há um link para a compra do livro. Comprando pelo nosso site, 30% do valor do livro é revertido para o Fundo de Combate aos Neuromitos e você ajuda a gente a realizar eventos gratuitos sobre neurociências pelo Brasil, desenvolver um aplicativo também gratuito sobre neuromitos e preparar os próximos livros da coleção Caçadores de Neuromitos.

Para conhecer melhor o Projeto dos “Caçadores de Neuromitos” acesse:

Site: http://www.cacadoresdeneuromitos.com/

Para comprar o livro: http://www.cacadoresdeneuromitos.com/#!shop/cpq3

Página no facebook: https://www.facebook.com/pages/Ca%C3%A7adores-de-Neuromitos/1398629140454130?fref=ts

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