Fosfoetanolamina: uma história mal contada

Talvez você tenha notado recentemente nos meios de comunicação e nas redes sociais certo barulho causado por uma “nova cura” do câncer: a fosfoetanolamina (FOSFO). Pra quem não foi atingido por esta onda vou fazer um breve resumo da história. No dia 17 de agosto, pacientes com câncer entraram na justiça para que a USP libere a distribuição de um suposto “remédio” para o combate da doença. O composto era produzido e distribuido dentro do Instituto de Química da USP-São Carlos (IQ-USP) e há relatos de melhoras dos sintomas e até cura. Em 2014, o IQ-USP passou uma portaria que regulava a produção e distribuição de qualquer substância usada com finalidade terapêutica produzida dentro de suas dependências. O documento esclarece que apenas aquelas substâncias que apresentarem toda a documentação emitida por órgãos públicos de saúde poderão seguir sendo produzidos e distribuídos pelo Instituto. A FOSFO, por não ter esses documentos, deixou de ser distribuída. O que se seguiu foi uma onda de brigas judiciais e protestos que agora ganham força pela cobertura da mídia.13042012drogas_remedios008-1115723

De imediato a reação foi de represália à atitude do IQ-USP, afinal de contas, é perfeitamente razoável criticar qualquer pessoa/instituição que dificulte o acesso ao tratamento de saúde àqueles que precisam, não é mesmo? Esse sentimento se estendeu a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) quando o químico responsável pela sintetização da FOSFO, e ex-professor do IQ-USP, Dr. Gilberto Chierice afirmou que a agência tem “má vontade” na hora de aprovar um novo remédio.

No meio da turbulência de opiniões e sentimentos pouca atenção é dada ao respaldo cientifico da liberação da FOSFO – algo que considero muito perigoso tendo em vista que as pessoas estão usando este composto. Por isso, achei necessário abordar este tema que está tão em voga na mídia e explicar porque, do ponto de vista científico, a FOSFO não deve ser liberada para a população .

Para uma análise mais completa do ponto de vista médico veja este vídeo do Drauzio Varela. Para uma análise de uma perspectiva de político-científica mais compreensiva veja este vídeo do Pirulla e este do Yuri (Eu, Ciência).

Uma jornada necessáriaTranslational_b

Ensaio clínico é o nome dado aos experimentos feitos com seres humanos (ou animais, no caso das pesquisas veterinárias) para testar a eficácia e segurança de 1) medicamentos e novos fármacos, 2) vacinas, 3) testes diagnósticos, 4) produtos para saúde e, 5) procedimentos clínicos e cirúrgicos em diferentes áreas da saúde. O objetivo de tal análise é encontrar a melhor alternativa disponível de tratamento para cada caso. Mas o que é preciso para que uma substância se torne um remédio?  Vamos descobrir isso com o caso do imaginário Bronquiodilatol (BQL): um remédio para tratar a asma.

Cultura de células

Cultura de células (modelo in vitro)

A jornada do BQL começa quando ele nem foi batizado ainda – ele é só mais um composto com um nome químico impronunciável por muitos. Após ser sintetizado e estudado por um laboratório químico, o BQL chama a atenção de um grupo de investigação de doenças pulmonares por conta de sua estrutura química e pela ação já conhecida de compostos similares a ele. Os pesquisadores decidem utilizar o BQL em um modelo da doença que dispõem: células pulmonares de pacientes asmáticos (modelo in vitro). Após ser testado em diferentes doses e condições ambientais celulares (inclusive em células de pessoas saudáveis), o BQL demonstra um bom resultado na reversão de sintomas celulares da asma. Como toda pesquisa científica, esses resultados são publicados e atingem diferentes pesquisadores. Outros grupos testam o BQL em modelos in vitro da asma (replicação[1]) e também observam resultados positivos, o que faz com que laboratórios que utilizam modelos animais da asma se interessem pelo composto.

Modelo animal

Modelo animal

Agora o BQL, que demonstrou ser efetivo em células, será testado em organismos vivos. Nosso remédio hipotético será administrado em animais “asmáticos”[2] em diferentes doses, vias de administração e tempos de tratamento. Novamente, os efeitos positivos do BQL são animadores e resultam em muitas publicações. Por ter ganho uma notoriedade no meio acadêmico, outros estudos são conduzidos (replicação), e a maioria confirma a validade terapêutica dele. Graças aos resultados obtidos, hospitais, médicos e/ou a indústria farmacêutica se interessam em investir no BQL e decidem estudar se os efeitos que são observados nos animais também serão observados em humanos. Para que isso ocorra são feitos os ensaios clínicos.

Os estudos com modelos in vitro e animais são chamados de estudos pré-clínicos.

Em um ensaio clínico a nova terapia a ser testada (no nosso caso, o BQL) deve ter seus efeitos comparados com os efeitos de uma intervenção que já existe no mercado, a um placebo ou a nenhuma intervenção (estes dois últimos são utilizados apenas nas avaliações com pessoas saudáveis, as doentes sempre devem receber algum tratamento já conhecido). Como já existe um remédio para asma, o Aerolin, espera-se que a efetividade e a segurança do nosso remédio imaginário sejam melhores que os obtidos com o Aerolin. Este estudo será conduzido em voluntários (participantes) e supervisionado por médicos que se tornarão responsáveis pelo acompanhamento integral do paciente – isso inclui anotar todos os sintomas que a pessoas pode manifestar enquanto toma o BQL, desde sentimentos depressivos à unha encravada. Os testes clínicos são divididos em fases (um estudo só passa para a próxima fase se os resultados obtidos nas fases anteriores forem de acordo com o esperado e seguros):

  • Fase 1 – Estudos de farmacologia humana

    Análises com voluntários saudáveis e enfatizam a segurança do BQL. O objetivo é descobrir quais são os efeitos colaterais mais frequentes e como o organismo metaboliza e excreta o composto.

  • Fase 2 – Estudos terapêuticos ou profiláticos de exploração

    Nesta fase busca-se resultados preliminares da efetividade do tratamento (se a intervenção funciona em seu público alvo – para o BQL, pessoas asmáticas). A segurança do composto continua sob investigação e eventos adversos a curto prazo são analisados.

  • Fase 3 – Estudos terapêuticos ou profiláticos confirmatórios

    Estes estudos continuam a avaliação da segurança do composto agora em um grupo bem maior de pessoas, com diferentes doses e também com combinação de outros remédios já aprovados.

  • Fase 4 – Ensaios pós-comercialização

    Nesta fase o BQL já foi aprovado para ser comercializado e atinge uma parcela muito maior da população doente. Esta fase permite acompanhar os efeitos do composto a longo prazo.

    Acompanhamento médico integral - parte vital de qualquer ensaio clínico

    Acompanhamento médico é parte vital de qualquer ensaio clínico

Ufa! Depois de todas essas fases o BQL finalmente pode ser receitado por médicos e vendidos em farmácias. Isso porque sua eficácia, e mais importante ainda, sua segurança foram rigorosamente avaliadas e constatadas pela Anvisa.

Para saber mais sobre os ensaios clínicos clique aqui!

Mas vamos sair do mundo imaginário do BQL e voltar à FOSFO. Apesar do Dr. Gilberto Chierice relatar que já distribui este composto para a população desde os anos 90, até hoje só foram publicados estudos pré-clínicos acerca dos efeitos dos antitumorais da FOSFO. Ou seja, toda a evidência científica que existe deste composto foi obtida em modelos in vitro ou modelos animais. Não há nenhum teste em seres humanos controlados. Não se sabe quem são as pessoas que utilizam/utilizaram o remédio, qual a posologia indicada, quais foram os possíveis efeitos colaterais, tempo de tratamento, e por ai segue uma longa lista de observações que devem ser respondidas pelo próprio bem da sociedade.

“Ah, mas eu conheço [INSERIR ALGUM CONHECIDO] que toma a FOSFO e teve resultados muito bons, do controle da metástase à cura!”. Esse argumento me leva ao meu segundo ponto.

O que é e o que achamos que é

Na psicologia existe um termo chamado viés cognitivo que é usado para descrever um padrão de distorção de julgamento que leva a uma interpretação perceptual errônea da realidade. Trocando em miúdos, nossa percepção do mundo é manipulada por nossas intuições. Você acha que o mundo é de um jeito simplesmente porque você pensa desse jeito. Existem vários vieses cognitivos mas o que mais chamou a atenção no caso da FOSFO foi o viés da disponibilidade: a tendência de julgar a probabilidade de eventos baseados na facilidade com que eles aparecem na sua cabeça.

O mundo não é só o que você acha que ele é.

O mundo não é só o que você acha que ele é.

RESPONDA RÁPIDO: “O que mata mais: acidentes ou doenças?”. A tendência das pessoas é pensar que a resposta certa são os acidentes, no entanto a realidade é que as doenças matam mais, muito mais. Por que será que respondemos acidentes? Uma explicação diz que isso é consequência da quantidade e impacto que notícias de mortes por acidentes chegam até nós em detrimento da pouca divulgação de mortes por doenças. Assim, nossa intuição equivocadamente nos sugere que acidentes matam mais do que doenças já que estes tem uma cobertura maior no mundo que nos cerca.

É muito fácil encontrar pessoas que defendem a liberação da FOSFO porque viram ou ouviram relatos de pessoas que foram “milagrosamente” curadas por essa substância ou que tiveram seus sintomas aliviados ou até eliminados. Só que até agora, eu não vi nenhum relato de pessoas que tomaram a FOSFO mas mesmo assim não tiveram uma sobrevida maior ou que apresentaram sintomas adversos. Só são relatados os casos em que há uma suposta melhora, no entanto os casos nos quais são observados efeitos colaterais ou nenhum efeito são ignorados. Qual é o resultado disso? Uma percepção distorcida da realidade que pode levar a um julgamento errado deste tratamento.

Imaginemos a possível situação: 100 mulheres com câncer de mama em estágio 3  começam a tomar a FOSFO e serão acompanhadas durante cinco anos. No final desse período observa-se que 34 mulheres ainda se encontram bem e os tumores estão sob controle ou remissivos. No entanto, 66 delas, infelizmente, morreram ou tiveram efeitos colaterais que as forçaram parar com o composto. Nesse exemplo, a FOSFO apresentou uma taxa de eficácia de 34% no caso de câncer de mama estágio 3.

Uma pessoa poderia olhar para esse caso e dizer: “Nossa, a FOSFO salvou 34 mulheres da morte! Esse remédio é a cura do câncer!”. Percebeu o problema deste argumento? A FOSFO pode ter ajudado estas 34 pessoas sim, mas ela não foi efetiva para as outras 66. Esta análise só é possível ser feita quando se têm um estudo sério acompanhando todo o tratamento do composto terapêutico. Não existem tais estudos sobre a FOSFO, por isso  é impossível avaliar a qualidade, segurança e eficácia deste composto.girl-grabbing-pills_144320375-300x197

É claro que eu compreendo as pessoas que defendem a FOSFO já que o seu ente amado não apresentou melhoras com os tratamentos convencionais. É claro que eu não quero que mais pessoas morram por conta de uma doença que talvez possa ser curada. É claro que acho que a vida deve ser valorizada, porém eu não posso deixar que aquela mesma ferramenta que mostrou que a talidomida tinha efeitos teratogênicos; que a penicilina podia ser usada para eliminar bactérias; e que possibilitou o surgimento de todos os outros tratamentos de doenças que existem hoje seja ignorada e que um sentimento de medo tome as rédeas do desenvolvimento médico. Se deixarmos nossa razão sucumbir às nossas emoções estaremos jogando fora toda o conhecimento empírico e científico que garante a saúde e proteção da nossa sociedade.  Sem estudos que comprovem a sua eficácia e segurança a FOSFO não pode ser distribuída.

Referências:

[1] replicação, ou reprodutibilidade, é a capacidade de um estudo ser duplicado ou pelo pesquisador original ou por um pesquisador independente. Isto garante que os resultados realmente são válidos.

[2] Animais que expressam sinais e sintomas similares aos apresentados por seres humanos (ex: capacidade pulmonar reduzida ou bronquioconstrição alérgica).

Briñol, P. et al. (2006) The malleable meaning of subjective ease Psychological Science

3 respostas em “Fosfoetanolamina: uma história mal contada

  1. Acredito que para uma pessoa que não tem a menor chance em relação a tudo que já foi oferecido pela medicina aprovada, a mínima chance que existir, aprovada ou não, tanto a pessoa quanto a família vai querer testar… Desenganado por tudo, havendo uma única possibilidade, ainda que remota de existir algo, vc que fez esta matéria, se estivesse com câncer, não tentaria?

    • Valeu pelo seu comentário Regiane.

      Sem dúvida nenhuma o câncer como muitas outras doenças com uma capacidade letal similar nos levam a considerar ações que em outras situações não levaríamos em conta. Como eu disse no texto, eu respeito as pessoas que estão lutando contra o câncer e seus familiares, e por isso meu objetivo com o texto foi explicar sobre o que garante a segurança de um medicamento e não em dizer que a pessoa não deve usar a FOSFO. Cabe a mim informar e não julgar.

      Quanto a minha opinião pessoal, caso eu estivesse com câncer, eu te afirmo que não usaria a FOSFO. Eu não busco definir minha opinião de um assunto meramente no relato de outras pessoas mas sim numa avaliação do contexto todo. Por isso, eu acho muito complicado abraçar a FOSFO quando é fácil observar que os relatos são muito mais tendenciosos aos casos de sucesso e não aos que não deram certo.

  2. Acho que no Brasil existe o que existe é só bla bla bla e nada concreto, quando acontece alguma coisa séria e concreta e que guadrilhas entram no negócio dai a imprensa para ajudar e bla bla bla ……. E todos ficam nessa sem solução

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